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8.557207 - Spanish and Portuguese Orchestral Music
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Música Portuguesa e Espanhola

Música Portuguesa e Espanhola

Orquestra do Algarve • Álvaro Cassuto

Juan Crisóstomo Arriaga (1806-1826) tem sido alvo, desde a sua morte prematura, dos mais entusiásticos comentários ("O Mozart Espanhol") e ao mesmo tempo vítima do desleixo de uma cultura musical que começou a cuidar da sua memória e do seu acervo artístico somente nos finais do século XIX. A Sinfonia em Ré, composta nos últimos dois anos de vida, terá sido dada a ouvir ao público apenas em 1888 e a partitura editada somente em 1933, com cortes e alterações duvidosas. Tamanho atraso para aquela que é sem dúvida a mais interessante de entre as pouquíssimas obras orquestrais de relevo de um compositor espanhol da primeira metade do século XIX causa admiração, se pensarmos que Arriaga foi unanimamente aclamado como um génio precoce no seu tempo. A sua morte prematura terá estado sem dúvida na origem do mito que fez dele, como de muitos outros, uma figura de culto, mais ainda pelas promessas que levou para a morte que pelas realizações que deixou em vida. Com efeito, as obras importantes de Arriaga são escassas: os 3 Quartetos de Cordas (uma raridade na Península), Los Esclavos Felices, e a Sinfonia em Ré. Somos tentados a aplicar ao músico espanhol o epitáfio escrito para Schubert: "Aqui se enterraram grandes tesouros e esperanças ainda maiores".

Arriaga aparece-nos hoje em dia como uma grande promessa, um excelente e intuitivo músico, que antes de estudar harmonia e contraponto com mestres já dominava a linguagem da sua época. As suas obras maiores, a Sinfonia em Ré e os já mencionados Quartetos aparecem-nos como uma música hesitando entre Mozart e o primeiro romantismo de Beethoven ou Schubert ou mesmo de Rossini. Arriaga estudou em Paris (onde viria a falecer), denotando uma queda invulgar para a música instrumental e para a aprendizagem séria do métier (Arriaga foi um virtuoso do violino além de assistente de Fétis na cadeira de Fuga).

As primeiras obras do espanhol, como a ópera Los Esclavos Felices composta aos 13 anos de idade, estavam no entanto ainda dependentes do universo operático italianizante da época. Los Esclavos Felices é uma mescla de estilo italiano, de Mozart e de Haydn, uma mescla de barroco tardio, puro estilo clássico de Rossini (notável por exemplo no tema staccato que inicia a segunda parte e na irresistível secção rápida perto do final).

Já a Sinfonia em Ré é uma obra de outras dimensões e alcance. Se os modelos atrás citados ainda se mantêm (talvez menos Rossini e mais Beethoven e Schubert), se a orquestra, não obstante o título Sinfonia para Grande Orquestra, se mantém dentro dos modelos clássicos (madeiras a dois, duas trompas, duas trompetes, tímbales e cordas), se a forma é regular (Arriaga mantém ainda um Minueto como 3º andamento, aliás o andamento menos interessante da obra), já o pathos emocional e o uso da tonalidade, bem como algumas técnicas de orquestração apontam para um futuro génio romântico.

Não que certos traços desse romantismo não possam também ser apontados em obras mais antigas do período Sturm und Drang de Haydn e Mozart (das quais a Sinfonia em Ré podia ser um eco après la lettre).. Porém, a atmosfera sombria, as modulações e a escrita cromática mais inesperada, a alternância entre Ré Maior e Ré menor (que fazem dela uma obra simplesmente "em Ré", nem Maior nem menor, com encadeamentos por vezes até modais), a escrita audaz para os sopros e a força dos desenvolvimentos (mormente no primeiro e último andamentos) fazem desta obra uma antecipação clara do romantismo musical que vingava já em toda a Europa (mas tardava na Península), e uma irmã precoce da Sinfonia em Dó Maior que Bizet compôs quando tinha praticamente a mesma idade do jovem compositor espanhol.

Carlos Seixas (1704-1742) terá escrito até à sua morte prematura mais de 700 sonatas para tecla, das quais apenas uma escassa centena sobreviveu. Amigo de Scarlatti, que o tinha em alta conta, difere deste o português na abordagem do género em vários andamentos e no cultivo de uma música menos brilhante e menos exigente tecnicamente, embora de um sabor e melancolia inequivocamente portugueses. A sua contribuição orquestral saldou-se na Sinfonia em Si bemol Maior, no Concerto para Cravo em Lá Maior e na Abertura em Ré Maior. Todas estas obras são escritas dentro do gosto italiano, e de divisão ternária, à excepção da Abertura, de maior riqueza formal pela influência francesa.

O mesmo se passa com as restantes obras e compositores presentes neste disco, que ilustram uma rara continuidade na música portuguesa: João de Sousa Carvalho (1745-1798) será professor de Leal Moreira (1758-1819) e de Marcos Portugal (1762-1830), e irá ainda a tempo de ensinar João Domingos Bomtempo (1775-1842). O período que estes músicos cobrem é um periodo aúreo, que se inicia com os reinados de Dom João V (1706-1750) e de Dom José I (1750-1777). O ouro vindo do Brasil influíu decerto no brilho e esplendor despesista que o século XVIII teve em Portugal. Com a fartura da riqueza, mandavam-se os compositores nacionais estagiar em Itália e importavam-se músicos e cenógrafos italianos para o país, onde a loucura da ópera italiana era acarinhada pelo Rei.

A Sinfonia de Leal Moreira é na realidade mais uma abertura italiana (1803 ?), tendo possivelmente servido numa das muitas óperas do autor, não se sabendo qual. O gosto italiano dá, aliás aqui as mãos, tal como na outra sinfonia conhecida do autor (em Ré Maior), ao gosto lisboeta pela modinha e pela cançoneta ligeira. É de realçar o uso da flauta solista que, destacada na introdução lenta, reaparece como uma reminescência para assinalar o início da trepidante coda.

Quanto a L’Amore Industrioso (1769) e Il Duca di Foix (1805), estas aberturas têm o interesse de representarem a escrita orquestral de função operática dos dois maiores nomes da ópera portuguesa, João de Sousa Carvalho e Marcos Portugal, justamente celebrados na época como, respectivamente, o mais importante autor de óperas e o mais conhecido e aclamado compositor português além-fronteiras. O estilo napolitano e a influência de Cimarosa são especialmente importantes em Marcos Portugal (que escreveu mais de 50 óperas) enquanto em Sousa Carvalho é a influência de Jomelli que predomina.

© Sérgio Azevedo, 2002

Orquestra do Algarve

A Orquestra do Algarve, que se estreou no Festival de Música do Algarve em 2002, foi criada ao abrigo do concurso público promovido pelo Ministério da Cultura, que participa no seu financiamento, e tem como fundadores, além da Região de Turismo e da Universidade do Algarve, um núcleo de autarquias algarvias, actualmente as de Albufeira, Faro, Lagos, Loulé, Portimão e Tavira.

Destinada a dotar a Região de um equipamento cultural do mais elevado nível artístico, o projecto da Orquestra do Algarve inclui uma actividade multifacetada, designadamente concertos para as populações locais e para os turistas, digressões nacionais e internacionais, e ainda edições discográficas para etiquetas internacionais. Além disso, desenvolverá uma forte acção pedagógica junto das camadas etárias escolares e a formação profissionalizante de jovens músicos portugueses.

Dirigida pelo maestro Álvaro Cassuto, a Orquestra do Algarve compõe-se de um núcleo de 31 músicos de diversas nacionalidades os quais, embora predominantemente jovens, têm todos experiência profissional ao mais elevado nível artístico. Muitos deles, aliás, já integraram orquestras de prestígio mundial como as Orquestras Sinfónica e Filarmónica de Londres, da BBC ou do Concertgebow de Amsterdam, entre muitas outras.

A Orquestra do Algarve - criada sob a égide da internacionalização da nossa Cultura uma vez que se insere numa Região essencialmente cosmopolita - foi saudada com grande entusiasmo por revistas do maior prestígio internacional como a Gramophone, a Classical Music e a Neue Musikzeitung, que reconheceram o seu elevado potencial artístico. Por outro lado, também mereceu a confiança da Naxos, uma das mais prestigiadas etiquetas discográficas internacionais, que editará quatro CDs por ano, dois dos quais foram gravados em Setembro de 2002.

Embora o cerne da sua actividade seja constituído pelos concertos que realiza por iniciativa das autarquias que a financiam, da Região de Turismo e da Universidade do Algarve, estão previstos concertos promovidos por outras instituições, designadamente festivais nacionais e internacionais, além de realizações patrocinadas por empresas de dimensão nacional e regional, que se pretendem associar a este empreendimento cultural que já deu provas decisivas da sua elevada qualidade artística. Álvaro Cassuto

Álvaro Cassuto é o maestro português com maior projecção e o único a ter sido director artístico e maestro titular de prestigiosas orquestras estrangeiras, designadamente:

University of California, Irvine, de 1974 a 1979;

Rhode Island Philharmonic, de 1979 a 1985;

National Orchestra of New York, de 1981 a 1986;

Israel Raanana Symphony Orchestra, de 2001 a 2002.

Em Portugal foi maestro director da Orquestra Sinfónica da Radiodifusão Portuguesa de 1970 até à sua extinção em 1989, criou a Nova Filarmonia Portuguesa em 1988, que dirigiu até 1993, ano em que foi convidado a fundar a Orquestra Sinfónica Portuguesa, que dirigiu de 1993 até 1999.

Nascido no Porto, muito cedo se afirmou como um dos compositores mais válidos da vanguarda portuguesa dos anos 60. Estudou direcção de orquestra com Pedro de Freitas Branco em Lisboa, Herbert von Karajan em Berlim e com Franco Ferrara em Hilversum. Obteve o diploma de Kapellmeister em Viena em 1965 um ano depois de se licenciar em Direito pela Universidade de Lisboa.

Em 1969, o maestro Erich Leinsdorf, titular da Orquestra Sinfónica de Boston, atribuiu-lhe o Prémio Koussevitzky, o mais importante galardão americano para jovens maestros, o que determinou a sua carreira norte-americana.

Tem sido maestro convidado de muitas dezenas das melhores orquestras europeias e norte-americanas, dirigiu a Royal Philharmonic Orchestra, a London Philharmonic Orchestra e a London Symphony Orchestra (tanto no Barbican de Londres como em gravações para CD), a Philadelphia Orchestra, as orquestras de Cleveland, de Los Angeles, North Carolina, Oklahoma e San Antonio, a Orchestre de la Suisse Romande, a BBC Philharmonic (que também dirigiu em vários festivais de música), as Orquestras Filarmónicas de São Petersburgo e de Moscovo, a Philharmonia Hungarica (que inclusivmente dirigiu em várias digressões pela Alemanha), a Orquestra da Rádio de Leipzig (que também dirigiu no Festspielhaus em Berlim), a Staatskapelle Weimar, a Orchestre Phillarmonique de la BRT em Bruxelas (que também dirigiu na ópera Die Fledermaus de Johann Strauss no Festival de Antuérpia), a Münchner Symphoniker (com a qual também gravou dois CDs dedicados a aberturas de Mozart e de Rossini), e a Orquestra Nacional de España, entre muitas outras.

Dirigiu as estreias em Portugal, no Teatro Nacional de São Carlos (de que também foi Director Geral durante a temporada de 1980-81), das óperas Erwartung de Schoenberg, II Prigionero de Dallapiccola, The Bear de William Walton e Em Nome da Paz da sua própria autoria, tendo também dirigido outras óperas no São Carlos e no Teatro da Trindade em Lisboa (pelo que lhe foi atribuído o Prémio da Imprensa).

Álvaro Cassuto tem uma discografia variada e extensa. Com a Nova Filarmonia Portuguesa gravou mais de 25 CDs para as etiquetas EMI Classics e Movieplay Portuguesa com muitas dezenas de obras do repertório clássico e romântico internacional.

Para a etiqueta Marco Polo gravou a Integral das Sinfonias de Joly Braga Santos com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, a Bournemouth Symphony Orchestra, a Northern Sinfonia e a National Orchestra of Ireland.

Deu início à edição discográfica de óperas do famoso compositor oitocentista Marcos Portugal, para a etiqueta Marco Polo com a City of London Sinfonia, e para a Dynamic de Génova com a orquestra Milano Classica.


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