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8.573043 - VILLA-LOBOS, H.: Symphonies Nos. 6 and 7 (Sao Paulo Symphony, Karabtchevsky)
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Heitor Villa-Lobos (1887–1959)
Sinfonias Nos 6 e 7

 

Heitor Villa-Lobos é tido, por consenso, como o principal compositor nacionalista a surgir na América Latina. Nos dias de hoje, suas obras mais bem conhecidas ainda são aquelas em que a voz nacional fala de maneira mais vibrante, sobretudo as grandes séries dos Choros e das Bachianas Brasileiras (Naxos 8.557460–62). Essa percepção, contudo, é um tanto distorcida, uma vez que deixa imensa porção de sua obra na sombra, notadamente suas doze sinfonias (ou melhor, onze, já que a Quinta se perdeu), obras das quais ele claramente se orgulhava.

O esforço de Villa-Lobos para estabelecer uma voz distintamente brasileira é apenas parte de seu projeto estético. Ele tinha consciência da carga histórica de um argumento sinfônico, como deixou claro em uma palestra proferida em 1958: “[Uma sinfonia] é uma música pela música. Música superior, música intelectual, não é música para ser assobiada por todo mundo. [Uma] sinfonia... se alguém tenta empregar efeitos especiais, de tipo exótico, folclórico ou algo parecido, nem acho correto chamá-la de sinfonia”.

Suas quatro primeiras sinfonias foram compostas antes de 1920, e as sinfonias de números 6 a 12 foram escritas depois de 1944. O hiato de 24 anos pertenceu a obras ostensivamente nacionalistas e experimentais, explorando formas pouco ortodoxas.

A Sinfonia no 6, “Sobre a Linha das Montanhas” (1944), inaugura seu estilo sinfônico maduro e em parte deriva de seu trabalho educacional. “Milimetrização” foi o processo que ele inventou para obter uma melodia a partir de uma imagem. Num papel quadriculado transparente, ele destinava as linhas verticais para as alturas e as horizontais para as durações; a transparência era sobreposta a uma foto, cujos pontos principais determinavam o contorno melódico. Um educador gabaritado podia então harmonizar a melodia frequentemente insólita assim obtida; o processo era pensado como forma de estímulo à criatividade das crianças. Villa-Lobos só utilizou esse método duas vezes em composição de música de concerto, na peça para piano New York Skyline Melody (1939) e nessa sinfonia. Posteriormente, um procedimento análogo seria por vezes adotado por compositores como Messiaen e Cage.

Os vários temas dessa sinfonia foram aparentemente extraídos de gráficos feitos a partir de fotos da Serra dos Órgãos, do Corcovado e do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, mas as imagens em questão nunca vieram a público. A estátua art déco do Cristo Redentor só foi colocada no topo do Corcovado em 1931, e é de se perguntar se ela não determinou o perfil de qualquer um dos temas. São de fato alguns dos mais angulosos em sua produção, e constituem um paradoxo para um compositor que manifestou desdém por “músicas de papel, que nascem no papel e morrem no papel”.

Villa-Lobos demonstra imaginação extraordinária em sua técnica de harmonização, que parece evoluir do cromático e instável primeiro movimento para a linguagem mais positiva do terceiro e do quarto movimentos. O primeiro motivo ouvido na peça é desenvolvido e invertido, de modo a preservar a unidade em todos os quatro movimentos, quer de forma sequencial, quer como parte do contraponto livre. O movimento lento é misteriosamente atmosférico em seu curso ascendente, mas o ponto mais alto da peça parece ser o conciso terceiro movimento (Allegretto). Já o quarto movimento, sem fazer qualquer referência direta a traços nacionalistas, traz a inconfundível marca do compositor no expansivo tema executado em violas e violoncelos divididos, nos fugatos livres e na vitalidade rítmica do tema da trompa antes da reprise. A singular inspiração temática e a relativa leveza dessa composição fizeram dela a mais frequentemente executada das sinfonias de Villa-Lobos.

A Sinfonia no 7 foi escrita em 1945 para um concurso de composição promovido pela Orquestra Sinfônica de Detroit. Apesar de estimada pelo compositor como uma de suas melhores obras, não recebeu nenhum prêmio (o segundo prêmio, ironicamente, foi dado a uma sinfonia dedicada a Villa-Lobos por Camargo Guarnieri). Composta para uma orquestra enorme, com todos os naipes duplicados ou triplicados e uma vasta seção de percussão, emprega ainda piano, duas harpas e um Hammond Novachord, possivelmente o primeiro sintetizador eletrônico. Foi estreada em 1949, com a Orquestra Sinfônica de Londres regida pelo autor.

As notas de programa da estreia continham uma pequena descrição, de caráter místico, batizando essa sinfonia de Odisseia da paz, com os quatro movimentos intitulados Prólogo Contrastes Tragédia Epílogo. Esses títulos não parecem encontrar correspondência na música e não figuram no manuscrito. Nove anos depois, Villa-Lobos deu um título parecido a um poema sinfônico, Odisséia de uma raça, dedicado ao Estado de Israel.

A Sinfonia favorece muito a volumosa seção de sopros, e as cordas com frequência ficam à beira de afundar sob o seu peso. Mas isso não impede que a avaliação do autor seja justa: é realmente uma de suas expressões mais ambiciosas e significativas, em que a variedade da textura e o fluxo harmônico livre não obscurecem um nítido senso de construção dramática.

O primeiro movimento é executado de um só fôlego, enfatizando acordes aumentados. Eles sustentam a tensão por baixo do conflito entre os grandes temas de harmonia sequencial, e a textura granulada do material secundário, dominado pelos formatos simétricos tão estimados pelo autor. Na reprise do material da abertura invertem-se os papéis das cordas e dos sopros. O segundo movimento apresenta algumas das mais delicadas texturas de Villa-Lobos em uma orquestração cheia de minúcias. Diz-se que o sabor oriental do tema do fagote teria origem nas letras da palavra “América” (a = lá, e = mi, c = dó etc.). A experiência de ampliação gradual da forma na sinfonia anterior encontra aqui uma aplicação ainda mais notável. O Scherzo parece ser uma das grandes construções paisagísticas de Villa-Lobos: notas repetidas passam por um verdadeiro prisma de orquestração e geram continuamente novos materiais melódicos, todos eles unificados pelos motivos secundários, como uma viagem de trem. O último movimento, por contraste, constitui uma gigantesca fantasia contrapontística, baseada no atrito entre um pequeno conjunto de motivos diatônicos e cromáticos.

A aproximação idiossincrática à tradição sinfônica representada pelas sinfonias da maturidade de Villa-Lobos testemunha seu esforço consciente de inventar um idioma clássico especificamente brasileiro, mais do que ser passivamente pautado por um folclorismo que já se tornava cada vez mais ultrapassado em face das rápidas mudanças na sociedade brasileira nos anos 1940.


Fábio Zanon
Fábio Zanon é violonista, professor visitante na Royal Academy of Music e autor de Villa-Lobos (Série “Folha Explica”, Publifolha, 2009).

Esta gravação integra o projeto de revisão musicológica e lançamento das 11 sinfonias de Villa-Lobos, iniciado em 2011 pela Criadores do Brasil (editora da OSESP), sob a supervisão do maestro Isaac Karabtchevsky.


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