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8.573151 - VILLA-LOBOS, H.: Symphonies Nos. 3, "War" and 4, "Victory" (Sao Paulo Symphony, Karabtchevsky)
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Heitor Villa-Lobos (1887–1959)
Sinfonias nº 3 ‘A Guerra’ e nº 4 ‘A Vitória’

 

Em 1913, Heitor Villa-Lobos, um aspirante a compositor de 26 anos de idade, ainda com a memoria fresca de uma juventude de viagens, aventuras e boemia, casou-se, no Rio de Janeiro, com Lucilia Guimaraes. Se, naquele momento, Villa-Lobos tivesse, por qualquer razao, abandonado a composicao, seu nome hoje mal ocuparia uma nota de rodape na historia da musica brasileira. Suas obras anteriores, apesar de vigorosas, sao de um compositor de pouca bagagem tecnica e estetica, quase um diletante.

O desenrolar dos acontecimentos fez com que ele se transmutasse numa figura de proa do modernismo internacional e um protagonista absoluto no cenario artistico de seu pais: Villa-Lobos nao foi simplesmente um compositor nacionalista, foi um agente criador da identidade cultural de seu pais, identidade essa que se enriqueceu a medida que ele se apropriou das tradicoes urbanas e rurais para se tornar mais ele mesmo. Que tenha sido capaz de conceber toda uma possibilidade estetica de tamanha relevancia, partindo da estaca zero numa idade relativamente avancada e, provavelmente, um caso unico entre os grandes compositores.

A estabilidade da vida domestica e o suporte profissional de sua esposa, uma pianista de cultura musical mais ampla que a dele a epoca, foram cruciais para dar direcao a sua proverbial fecundidade. Villa-Lobos aprendeu piano, estudou harmonia, instrumentacao e formas musicais quase que por conta propria e, ja entre 1915 e 1918, organizou concertos com suas primeiras obras de grandes dimensoes: os tres primeiros quartetos de cordas, as sonatas para violino e violoncelo, e os poemas sinfonicos Naufrágio de Kleonikos e Tédio de Alvorada.

Nem sempre a recepcao das obras era positiva, porem seu compromisso como compositor so se inflou frente aos meios artisticos. Em 1918, conheceu o pianista Arthur Rubinstein, que se tornou defensor aguerrido de sua musica. Este reconhecimento crescente possibilitou a estreia parcial da Sinfonia no 1 e culminou na encomenda oficial do Triptico da Guerra, composto pelas Sinfonias no 3 – “A Guerra”, no 4—“A Vitória” e no 5—“A Paz”, em 1919. A Sinfonia no 5, se e que chegou a ser escrita em sua totalidade, nunca foi tocada e sua partitura esta perdida.

O Brasil teve uma participacao pequena na 1a Guerra Mundial, mas transformou-se com seu impacto. Inicialmente o pais se declarou neutro, mas o bombardeio de navios brasileiros por submarinos alemaes em 1917 provocou um clamor popular que obrigou o governo a se alinhar contra a coalisao germanica, patrulhando o Atlantico sul. O cafe, unico produto de exportacao do Brasil, foi declarado superfluo durante o conflito; isso forcou o pais a diversificar sua economia e a iniciar uma infraestrutura industrial, o que fez prosperar a decada de 1920.

Este e o contexto para a encomenda das duas sinfonias deste CD. Em 1920, os reis da Belgica visitaram o Rio de Janeiro e as sinfonias comemorativas do armisticio seriam apresentadas em concerto em homenagem aos monarcas. As tres sinfonias, do Triptico da Guerra, foram baseadas em textos do historiador Luiz d’Escragnolle Doria, de pauperrimo valor poetico e filosofico, cujo conteudo parece mais apropriado a despertar os valores civicos e pacifistas em estudantes colegiais.

Biografos e musicologos tendem a encarar as Sinfonias de Villa-Lobos como obras de inspiracao literaria, constatacao so verdadeira pela metade. Villa-Lobos compos as quatro primeiras em rapida sucessao, no final da decada de 1910. Todas elas sao inspiradas em roteiros literarios. Sua proxima sinfonia so apareceu em 1944, depois de um hiato de 25 anos. Ja as sinfonias de nos 6 a 12, apesar dos subtitulos das nos 6 e 7, sao obras de argumento puramente sinfonico. A monumental excecao e a Sinfonia no 10, praticamente um oratorio. O total perfaz cinco obras programaticas contra seis absolutas, mas o fato e que Villa-Lobos tinha ideia bastante clara de qual era o seu estilo enquanto compositor de sinfonias, e a sensacao de conjunto esta bem perceptivel. Ainda assim, as duas sinfonias aqui presentes sao aquelas onde a forma mais se apresenta subordinada ao argumento do texto.

A Sinfonia no 3—“A Guerra”, trazia o subtitulo “Poema Simbolico”, posteriormente mudado para “1a Sinfonia Simbolica”. O primeiro movimento, “A Vida e o Labor”, estrutura-se como uma especie de rondo em seis secoes. Nao obstante o labor estar representado pela atividade orquestral febril, a natureza hexatonica da maioria dos temas (isto e, construidos a partir de uma escala de 6 tons—em intervalos iguais) contamina-o com instabilidade.

O segundo, “Intrigas e Cochichos”, representa as maquinacoes politicas que precedem a guerra atraves do conflito entre temas de natureza diatonica (“notas brancas”), cromatica (“notas pretas”) e modal (a maneira antiga, antes da tonalidade ou acenando para escalas orientais). O aspecto externo da estrutura ritmica e o acumulo de camadas de contraponto parecem inspirados na Sinfonia Eroica, de Beethoven.

O terceiro movimento, “Sofrimento”, mostra um Villa-Lobos em debito com o cenario lugubre da opera italiana, tanto pelo mote dos violoncelos e contrabaixos no inicio—que faz pensar no Rigoletto de Verdi—, quanto pelo lirismo do estilo melodico algo seresteiro. Tracos do Villa-Lobos tardio ja estao presentes, como as gigantescas construcoes sequenciais com dissolucao dissonante, e a divisao em secoes sem contraste tonal (praticamente todas elas em Do Menor), so possivel pela certeza de sua ambientacao e fecundidade melodica.

No ultimo movimento, “A Batalha”, o carater descritivo e mais pronunciado, na febril atividade orquestral e truculentas intervencoes da fanfarra e da percussao. Ele apresenta um carater ciclico, retomando, a guisa de crescimento formal, temas do 1o e 3o movimentos, em colagem com fragmentos do Hino Nacional brasileiro e da Marselhesa.

A grandiosidade alucinada deste ultimo movimento e transferida para o primeiro movimento da Sinfonia no 4—ate mesmo a indicacao de andamento, allegro impetuoso, e a mesma. Como na obra anterior, o primeiro movimento, por tras de um aspecto rapsodico, apresenta uma especie de leitmotif marcial que retorna em pontos estrategicos de toda a sinfonia.

O scherzo e um momento feliz de brilho orquestral em compasso de 7/4, construido por ideias melodicas modais que evocam Debussy e a musica russa. O terceiro movimento confirma a maturidade de invencao instrumental de Villa-Lobos: ninguem alem dele poderia conceber a textura de clarone (clarinete-baixo), contrafagote e sax baixo subordinada a melodia de corne ingles e violas, numa marcha funebre que ilustra com sensibilidade a frase de Escragnolle Doria: “A Europa e um cemiterio de covas ignoradas”.

O ultimo movimento e bem mais longo que os anteriores e espicha o triunfo a um ponto talvez exagerado, mas ha inumeros momentos de alta imaginacao em meio ao frenesi orquestral. O retorno do leitmotif relembra o ultimo movimento da Sinfonia Op.43, de Henrique Oswald, estreada em 1917, que Villa-Lobos admirava e chegou a reger.

Ambas as sinfonias empregam um aparato orquestral ciclopico. Em adicao a orquestra completa com piano, harpas e celesta, ele usa uma fanfarra de bugles, cornetas e outros instrumentos marciais, com efeito empolgante. A Terceira Sinfonia ainda conta com um coro ad libitum; a Quarta tambem emprega um “conjunto interno” de requintas e saxofones, em efeito de deslocamento espacial.

Essa extravagancia orquestral leva alguns estudiosos a detectarem uma afinidade com Respighi; entretanto os dois devem ter chegado a resultados semelhantes por vias distintas, pois as obras mais explosivas de Respighi so foram escritas nas decadas de 1920 e 1930 (ele visitou o Brasil em 1928). Aqui temos um jovem Villa-Lobos com extraordinaria confianca em sua “mao” orquestral, ja senhor de efeitos insolitos, versado em autores franceses do seu tempo, como Vincent d’Indy e Florent Schmitt, inspirado por russos como Alexander Borodin e Alexander Scriabin, talvez pouco interessado no bom-gosto convencional, mas totalmente a vontade em concatenar um fluxo sinfonico unificado, em meio a poderosas atmosferas orquestrais.


Fábio Zanon
Fabio Zanon e violonista, professor visitante na Royal Academy of Music e autor de Villa-Lobos (Serie “Folha Explica”, Publifolha, 2009).


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