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8.573243 - VILLA-LOBOS, H.: Symphony No. 10, "Amerindia", "Sumé pater patrium" (Neiva, Javan, São Paulo Symphony Orchestra and Chorus, Karabtchevsky)
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Heitor Villa-Lobos (1887–1959)
Sinfonia nº 10 ‘Ameríndia’ (Sumé Pater Patrium)

 

A musica de Heitor Villa-Lobos (1887–1959) costuma ser descrita com as palavras de Mario de Andrade: “Violenta, irregular, de extrema riqueza, de forma ate desconcertante, na variedade de suas modulacoes ritmicas, ora selvagem, ora sentimental de um modo muito brasileiro, ora infantil e muito delicada”. Talvez seja surpreendente saber que o plano panoramico e de longo prazo que informa essa producao vasta, variada, heterogenea e muitas vezes extravagante deve-se mais a J.S. Bach do que a qualquer outra influencia consciente. Bach adotou elementos da musica internacional e desenvolveu uma tecnica e um aspecto externo diferentes para cada genero; seu senso de ordem torna esta mistura ao mesmo tempo pessoal e universal. Villa-Lobos, que adorava Bach e, de modo intuitivo, considerava a musica dele como patrimonio da humanidade, seguiu seu exemplo a partir do mesmo conceito e se esforcou para desenvolver uma linguagem ao mesmo tempo internacional e relevante para a formacao de uma cultura musical brasileira.

Assim como Bach tinha limites estilisticos claramente demarcados, Villa-Lobos, ao longo de sua carreira de compositor, privilegiou, para cada genero, certo tipo de organizacao material, formal e de percepcao auditiva. Aqueles que procuram um desenvolvimento linear das obras ao longo das cinco decadas de composicao so encontrarao coerencia interna em cada ciclo; aqueles que esperam um pouco mais das Bachianas Brasileiras ou dos Choros em seus concertos ou sinfonias ficarao totalmente perplexos.

As sinfonias sao as obras menos exploradas na vasta producao orquestral de Villa-Lobos. A decada de 1920 foi informada pela estetica nao convencional dos Choros e, nos anos 1930, predominou o gosto pessoal pelo neoclassicismo das Bachianas Brasileiras. As cinco primeiras sinfonias (na verdade quatro, porque a nº 5 e considerada perdida) foram escritas antes de 1920 e sao obras vagamente programaticas; ele so voltou ao genero em 1945 com a Sinfonia nº 6 e, dai em diante, elas surpreendem pelo carater convencional, ao menos na aparencia: Villa-Lobos concebe a sinfonia em quatro movimentos puramente instrumentais, cujo material tematico e sobrio e nao abertamente nacional, sem quaisquer instrumentos exoticos. O que ele faz com esses parametros, porem, esta longe de ser convencional.

A Sinfonia nº 10—Ameríndia constitui uma excecao mirabolante a esta regra. Na verdade, pelo ecletismo e poliestilismo, ela e unica na producao do compositor. As outras obras que podem ser descritas em termos semelhantes foram inicialmente concebidas como trilhas sonoras de filmes: Descobrimento do Brasil e Floresta do Amazonas. Ela foi fruto de uma encomenda para um grande evento de interesse local, a celebracao do 400o aniversario da fundacao da cidade de Sao Paulo, em 1954. Curiosamente, a partitura e datada de 1952, o que confundiu alguns autores em relacao ao verdadeiro jubileu. Por fim, apenas em 1957 ela estreou em Paris; a estreia brasileira aconteceria seis meses depois, no Theatro Municipal de Sao Paulo.

Ate mesmo a capa da partitura reflete a dificuldade de classificar o carater real dessa obra. Ela leva dois subtitulos, Sinfonia Ameríndia e Sumé Pater Patrium. A descricao—oratorio para solistas, coro e orquestra—deixa claro que nao se trata de uma sinfonia coral como a de Beethoven. No seu ambito, e bastante semelhante a de Mahler, ou a Missa Glagolítica, de Janacek.

O segundo titulo—Sumé, o Maior Pai dos Pais—refere-se a entidade pre-colombiana, mitologica, dos indios tamoios. Sume e descrito como um velho barbudo, branco como a luz do dia, que veio do mar e percorria a costa, ensinando agricultura, o uso do fogo e a organizacao social. A tradicao catolica espalhou a lenda de que Sume seria na verdade Sao Tomas, o Apostolo (Sao Tome, em portugues. Acredita-se que pregou na India). Villa-Lobos transporta a lenda ao seculo XVI, projetando o papel civilizador de Sume como uma visao alegorica do padre jesuita Jose de Anchieta (1534–1597), um dos fundadores da cidade de Sao Paulo.

Anchieta, um beatum, ou abençoado, pela Igreja Catolica,—canonizado em 2014—e uma das figuras mais extraordinarias dos primeiros anos da historia brasileira. Nascido nas Ilhas Canarias, de pai basco e mae de origem judaica, ingressou na ordem dos jesuitas em 1551; veio para o Brasil, como missionario voluntario, com vinte anos incompletos. Ele logo aprendeu o tupi (entao chamado de “lingua geral”) e escreveu a primeira gramatica da lingua. Apesar de padecer de “espinhela caida”, ele subiu a Serra do Mar ate o planalto onde, no dia 25 de janeiro, celebrou, numa cabana minuscula, a missa pela fundacao da vila que se transformaria na metropole de hoje. A cabana se tornou sua casa, um hospital e uma escola primaria catolica, preservando ate nossos dias a posicao de marco no centro de Sao Paulo.

A conversao indigena ao cristianismo e reprovada hoje como um massacre cultural, mas na verdade Anchieta procurou defender os povos nativos do comercio de escravos, perpetrado pelos colonizadores portugueses. Ele se ofereceu como refem para os indios durante as negociacoes de paz com os portugueses em 1563. Consta que, durante o periodo de cativeiro, ele operou milagres e escreveu Beata Vergine (O Poema da Virgem) com uma vara na areia da praia. O poema, com mais de 5 mil versos em latim, teria sido memorizado e so posteriormente transcrito. Uma parte dele e integrada ao longo quarto movimento, o episodio central da sinfonia.

Villa-Lobos, aparentemente, tentou fazer um somatorio de seus varios estilos. Apesar das caracteristicas de oratorio, os tres primeiros movimentos estao em consonancia com o estilo geral de suas sinfonias anteriores. O primeiro movimento, puramente instrumental, tem por subtitulo “A Terra e os Seres”, mostrando a profusao de florestas virgens. Cada marca de ensaio na partitura apresenta um novo tema; alguns deles se tornarao recorrentes em outros movimentos, um pouco desenvolvidos ou modificados.

Villa-Lobos tende a representar o estado primitivo por meio de temas baseados em notas repetidas, intervalos curtos, paralelismo e ecos de escalas pentatonicas. Um motivo particularmente importante consiste em notas vizinhas seguidas por uma quinta descendente, que aparecerao numa forma modificada no segundo movimento. Este, intitulado “Grito de Guerra”, e um lamento pela inocencia perdida, em que o coro canta melodias sem palavras e um cantor com voz de baixo, representando a Voz da Terra, clama aos nativos para que se tornem os senhores da Terra.

O terceiro movimento e um scherzo-giga de propulsao beethoveniana, uma caracteristica frequente nas ultimas sinfonias de Villa-Lobos. O coro canta em tupi, com textos extraidos de livros de viagem dos seculos XVIII e XIX, sugerindo a evolucao de macacos a construtores de casas, uma ocupacao humana ludica; a inferencia e que isso so aconteceu com a chegada dos europeus. A textura do coro baseia-se em paralelismos e no formato pergunta e resposta. Um novo personagem, um baritono representando o amerindio, aparece.

O quarto movimento, tao longo quanto os tres primeiros juntos, e o nucleo dramatico da obra. A sucessao de episodios e dialogos entre estilos musicais contrastantes produz um efeito semelhante ao do Credo numa missa. A duracao aproximada de vinte e cinco minutos, quase a de uma sinfonia inteira, deu margem a especulacao de que Villa-Lobos teria inserido a 5ª Sinfonia perdida (originalmente chamada de A Paz em um triptico de guerra) como o quarto movimento de Ameríndia.

Os nativos perguntam quem esta chegando e nao sabem se se trata do Deus-Sol, do Deus do Mal ou do proprio Sume. Jose de Anchieta se revela louvando as glorias da Criacao. Em episodios sucessivos, Anchieta se arrepende de seus pecados, jura fidelidade a Virgem e pede a misericordia de Deus. Um episodio turbulento para o baritono solista alerta para a presenca de um dragao infernal (no poema de Anchieta, e o protestantismo de Calvino), cercado pelas imprecacoes do coro no final do movimento.

O quinto movimento se inicia com um reconhecimento da paz trazida pela Virgem e seu Filho, seguido de uma saudacao ao Espirito Santo e de honrarias feitas por profetas e reis ao nome da Virgem. O ultimo episodio celebra a conversao de Paulo e a fundacao da vila de Sao Paulo. Esse pequeno fragmento do que, sem duvida, e a primeira obra-prima poetica escrita no Brasil revela a complexidade mistica de Anchieta, em linguagem vivida. A Sinfonia se destaca como a mais ambiciosa peca coral escrita por Villa-Lobos, na qual ele consegue controlar as vertentes conflitantes de suas preferencias musicais de acordo com os sentimentos contrastantes do texto, traduzindo a conflagracao mistica em climax musical.

Famoso pelas exigencias extravagantes feitas aos musicos de orquestra, Villa-Lobos aqui nao faz nenhuma excecao. A escrita para cordas e vozes e de extrema dificuldade, todos os instrumentos de sopro e metais sao triplicados ou quadruplicados, o naipe de percussao e vasto e ha partes significativas para piano, harpa e orgao. A Ameríndia foi composta sob circunstancias que muitos consideram pouco promissoras: tratava-se de um hibrido de sinfonia e oratorio, baseado num texto longo e profundo em tres linguas, com referencias a duas religioes (paga e catolica), e cercado de delicadas restricoes politicas e ideologicas. Diante desse tipo de incumbencia, um compositor enfrenta a escolha entre escrever uma musica burocratica de um modo calculado ou agarrar a oportunidade para mostrar o melhor que ele tem a oferecer. A burocracia nao impediu Handel, Beethoven ou Britten de escrever excelente musica, nos Hinos da Coroação, na Consagração da Casa ou no Réquiem de Guerra, respectivamente. Villa-Lobos, sem duvida, escolheu a segunda opcao. Esta sinfonia-oratorio impoe-se como uma obra coesa, rica em passagens emocionantes, e cuja ampla reflexao sobre o choque de culturas parece sem paralelo na musica classica.


Fábio Zanon
Fabio Zanon e violonista, professor visitante na Royal Academy of Music e autor de Villa-Lobos (Serie “Folha Explica”, Publifolha, 2009).

Esta gravacao integra o projeto de revisao musicologica e lancamento das 11 sinfonias de Villa-Lobos, iniciado em 2011 pela Criadores do Brasil (editora da OSESP), sob a supervisao do maestro Isaac Karabtchevsky.


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