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8.573461 - Cello and Orchestra Music (Portuguese) - COSTA, L. / LOPES-GRAÇA, F. / FREITAS BRANCO, L. de / BRAGA SANTOS, J. (Borralhinho, Neves)
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Música portuguesa para violoncelo e orquestra

 

Luiz Costa (1879–1960): Poema
(versão completada e orquestrada por Pedro Faria Gomes)

Embora menos conhecido que os outros três compositores aqui representados, muito devido à ainda escassa divulgação da sua obra, Luiz Costa foi, todavia, uma personalidade de relevo do panorama musical português da primeira metade do século XX, nomeadamente no que toca ao desenvolvimento da vida musical da cidade do Porto, cidade onde nasceu e onde viveu a maior parte da vida. Tendo tido como primeiro mestre o seu futuro sogro Bernardo Moreira de Sá (1853–1924), fundador da sociedade de concertos Orpheon Portuense (1881), do Quarteto Moreira de Sá—do qual foi membro a violoncelista Guilhermina Suggia—e primeiro director do Conservatório do Porto, Luiz Costa estudou depois em Berlim, onde foi discípulo de José Viana da Mota e de Ferrucio Busoni, entre outros. Após regressar ao Porto, desenvolveu uma carreira muito activa, quer como pianista e compositor, quer como docente, tendo sucedido a Moreira de Sá na direcção do Orpheon Portuense e, também, do conservatório. Como compositor, embora tenha privilegiado o seu instrumento, foi prolífico em vários géneros, tendo deixado um espólio de cerca de 180 obras. Infelizmente, este é ainda pouco conhecido e divulgado (quer através de partituras editadas, quer através de gravações). A versão original de Poema, escrita para violoncelo e piano, data da década de 1950. Em 1956, o compositor começou a adaptar a obra para violoncelo e orquestra, mas deixou o projecto inacabado. A versão aqui apresentada foi completada e orquestrada por Pedro Faria Gomes (n. 1979) em 2008 a partir do manuscrito original, em resposta a um convite da violoncelista Madalena Sá e Costa, filha de Luiz Costa. A adaptação partiu das algumas indicações relativas à orquestração que o compositor incluiu no manuscrito. Poema tem um único andamento que é estruturado em forma sonata com uma coda alargada. As inúmeras variações de ambiente e carácter, e as harmonias vagamente impressionistas, por vezes luxuriantes, conferem grande dimensão à peça e são reveladoras da inventividade do compositor, tanto a nível harmónico como melódico. Na secção final, seguindo o espírito da peça, Faria Gomes introduziu uma cadenza para o solista.

Fernando Lopes-Graça (1906–94): Concerto da Camera col Violoncello Obbligato, op. 167

Natural de Tomar, Fernando Lopes-Graça foi uma figura cimeira da música portuguesa do século XX, destacandose como compositor, pianista, pedagogo, ensaísta, crítico e dirigente coral. Foi igualmente um activo opositor ao regime salazarista, postura essa que o levou a ser detido e que prejudicou a sua carreira em diversas ocasiões. Lopes-Graça foi aluno do padre Tomás Borba, de Luís de Freitas Branco, e de José Viana da Mota, entre outros, tendo mais tarde estudado também com Charles Koechlin em Paris, onde viveu entre 1937 e 1939. Foi aí que começou a interessar-se de forma assumida pela música tradicional e pelo folclore que, após os seu regresso a Portugal, explorou e integrou nas suas próprias obras, embora sempre de forma muito pessoal e oposta ao “folclorismo” promovido pelo regime. O Concerto da Camera col Violoncello Obbligato foi escrito entre 1965 e 1966 a pedido de Msitslav Rostropovich. Foi o próprio violoncelista russo que estreou a obra, no dia 6 de Outubro de 1967, na Grande Sala do Conservatório de Moscovo, com a Orquestra Filarmónica de Moscovo sob a direcção de Kirill Kondrashin (estreia essa que ficou gravada para a posteridade). É, indubitavelmente, uma das mais notáveis obras de Lopes-Graça e uma das mais representativas da sua maturidade artística. O tom sombrio, dissonante e algo austero, que aliás partilha com outra das suas mais admiráveis criações, o Canto de Amor e Morte (para piano e quarteto de cordas), é perceptível desde o enigmático tema inicial, tema esse que irá moldar todo o discurso musical. Este é intensamente cromático, por vezes obsessivo, por outras claustrofóbico, muito provavelmente reflexo do contexto social e político da época.

Luís de Freitas Branco (1890–1955): Cena Lírica

Figura determinante do meio musical português durante a primeira metade do século XX, Luís de Freitas Branco (1890–1955) nasceu em Lisboa no seio de uma família aristocrática. Discípulo, entre outros, de Tomás Borba, de Désiré Pâque e de Engelbert Humperdinck, com quem estudou em Berlim, destacou-se não só como compositor, mas também como pedagogo, crítico, musicólogo e divulgador, com grande quantidade de obra publicada. O talento como compositor manifestou-se precocemente, ainda no início da adolescência, e ao longo da vida Freitas Branco produziu uma obra prolífica, múltipla—no que toca aos estilos e géneros abordados—e de enorme efervescência criativa, tendo sido o principal e mais destacado introdutor das correntes modernistas na música portuguesa. Cena Lírica foi estreada em Lisboa, a 9 de Abril de 1916, pela violoncelista Maria Júlia Fontes Pereira de Melo, acompanhada pela Orquestra Sinfónica Portuguesa sob a direcção de Pedro Blanch. Trata-se da primeira obra de Freitas Branco escrita para instrumento solista e orquestra, e precede, por escassos meses, o seu Concerto para Violino e Orquestra, de inspiração explicitamente clássica e no qual é perceptível a influência de César Franck. Cena Lírica foi, assim, escrita antes do compositor adoptar uma tendência assumidamente neo-clássica, o que sucedeu a partir da década de 1920, e cujas obras fundamentais são as quatro sinfonias. Alguns anos mais tarde, já na década de 1940, Freitas Branco reviu a partitura de Cena Lírica, fazendo, nomeadamente, algumas alterações à orquestração original. A peça abre com um solo de corne inglês, logo imitado pelo violoncelo. O ambiente torna-se, depois, mais premente, com o violoncelo no registo agudo acompanhado por um movimento nervoso das cordas, papéis que se irão inverter após um primeiro clímax de intensidade. Segue-se uma declamação de enorme lirismo do solista, secção em que sobressai a qualidade tímbrica do instrumento, antes de um novo clímax que precede a derradeira aparição do tema inicial.

Joly Braga Santos (1924–88): Concerto para Violoncelo e Orquestra, op. 66

Discípulo ilustre e muito próximo de Luís de Freitas Branco, Joly Braga Santos desenvolveu carreira como compositor, maestro, crítico e professor. Natural de Lisboa, onde nasceu em 1924 e viria a morrer em 1988, é sobretudo conhecido pelas suas obras orquestrais, sendo autor daquele que é certamente o mais relevante conjunto de sinfonias de um compositor português no século XX. O Concerto para Violoncelo e Orquestra resulta de uma encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian e foi terminado em Março de 1987, sendo assim uma das últimas obras do compositor. Dividido em três andamentos (Moderato, Allegro e Andante, ou seja lento-vivo-lento, em oposição ao formato tradicional do concerto clássico) que se sucedem sem interrupção, é por vezes descrito como sendo uma obra orquestral, ou um poema sinfónico, com violoncelo solista. De facto, por diversas vezes no andamento inicial, a massa orquestral parece assumir o discurso e subjugar o solista que, então, se limita a comentar, como se de um observador se tratasse. É com um enigmático solo de oboé, logo retomado pela flauta e, depois, pelo clarinete que a obra começa. Uma linha melódica longa e complexa, que poderia fazer lembrar tanto Stravinsky como Debussy, e que vai moldar a paisagem sonora do primeiro andamento: cromática, de tonalidades sombrias e de intensa expressividade. Se este mantém uma aura de lamento ou meditação misteriosa, o Allegro que se segue introduz secções mais explicitamente vigorosas. O violoncelo torna-se aqui mais presente, mais virtuosístico também, como se o solista se quisesse sobrepor à orquestra que contrapõe com acordes violentos. O misterioso lamento inicial volta a surgir logo no início do Andante, nas madeiras. O ambiente mantém-se sombrio e anguloso, não obstante uma ou outra harmonia mais luminosa, com o discurso musical a tender para o registo grave e, progressivamente, para o silêncio. A estreia do Concerto para Violoncelo deu-se a 9 de Maio de 1988 pela violoncelista Célia Vital, acompanhada pela Orquestra Gulbenkian sob a direcção de Michel Swierczewski.

Francisco Sassetti


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