About this Recording
8.573554-55 - CARVALHO, J. de S.: Angelica (L') [Serenata per musica] (Seara, L.V. Curtis, GuimarĂ£es, Tavares, Medeiros, Concerto Campestre, Castro)
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João de Sousa Carvalho (1745–1798)
L’Angelica

 

“Nenhuma casa real na Europa era então tão musical como a de Portugal”, declarava em 1772 Nathaniel Wraxall no seu Historical Memoirs of my own time (publicado em 1815), argumentando saber que “o próprio D. José I tocava com considerável competencia violino; e as três princesas suas filhas, todas eram mais ou menos habilitadas em diferentes instrumentos” A mais velha destas princesas viria a tornar-se D. Maria I, cujo reinado deixou de parte as grandes produções de ópera públicas e preferiu dramas musicais realizados nas salas dos palácios, nos dias onomásticos e de aniversário dos principais membros da família real. A norma era os respectivos enredos versarem sobre feitos heróicos de soberanos da Antiguidade em que o personagem principal refl ectia a virtude e nobreza de sentimentos do homenageado. Neste contexto é algo surpreendente este drama de Metastasio, que conta como a bela Angelica ludibriou com os seus poderes de sedução o nobre Orlando para assim fugir com o seu Medoro.

É preciso ter em conta que a dedicatária desta obra, a Princesa Maria Francisca Benedita, se tinha tornado recentemente herdeira do trono e que, sendo irmã da soberana e “mais prendada nas artes e na figura” segundo os testemunhos da época, se tinha tornado objecto de uma certa pedagogia e formação moral por parte da rainha. Angelica é bem sucedida na seu esquema e consegue o seu propósito, mas as consequências das suas acções são graves e injustas. Ciente das qualidades e capacidades da irmã, a rainha pretendeu porventura transmitir-lhe que os dotes de beleza e inteligência, apesar da sua eficácia, devem ser usados de forma e moralmente aceitável. O que torna um pouco mais subtil esta relação da heroína do drama com a princesa dedicatária é uma viragem algo inesperada no enredo, no momento em que Orlando num ataque de ciúmes perde o juízo, ameaça os deuses e reclama com os astros. Quando tudo parece perdido ele vê um astro “benigno” que lhe mostra as qualidades da princesa e o leva a cantar-lhe a respectiva dedicatória ou licenza, no final da qual os restantes solistas se juntam em coro.

Esta foi a oportunidade de João de Sousa Carvalho, sucessor de David Perez no cargo de Mestre de Música de Suas Altezas Reais, ou seja, das infantas, se estrear nestes dramas de corte com um texto do clássico padre poeta. A capacidade de fazer sobressair os sentimentos dos personagens nos recitativos acompanhados, o cuidado em escrever os ornamentos e variações nas secções repetidas das árias, a intensidade dramática do dueto do final da primeira parte e a delicadeza expressiva da segunda ária de Medoro terão com certeza conquistado os ouvidos e corações da Casa de Bragança, cujo exigente e cultivado gosto musical era bem conhecido. De tal forma que D. Maria I chegou mesmo a oferecer várias das partituras deste compositor à corte de Madrid e a confiar-lhe a responsabilidade de criar as obras mais importantes do seu reinado, como foi o caso de “Nettuno ed Egle” em 1785.

O texto de Metastasio, posto em música pela primeira vez em 1720 por Nicola Porpora, é uma das suas muitas obras dramáticas de menor dimensão e das poucas que originalmente foi intitulada pelo próprio poeta de “Serenata” e não “Dramma per musica” como era mais comum. A razão desta distinção não é óbvia em termos do tipo de escrita ou até mesmo do tipo de personagens, que nas Serenatas de Alessandro Scarlatti tendiam a ser alegóricas e a ter a função de louvar alguém ou celebrar algum acontecimento importante. A razão mais clara desta classificação em L’Angelica tem uma raiz claramente poética e pode-se identificar no próprio enredo, que em grande parte se passa na noite em que os amantes resolvem fugir. Nesta fuga, Medoro apercebe-se do luar que afortunadamente lhes ilumina o caminho e dedica ao astro a ária “Bela Diva all’ombre amica” tal como um amante dedicaria uma serenata à janela da sua diva.

Nas apresentações das Serenatas de corte no tempo de D. Maria I, os cantores solistas actuavam à frente de uma orquestra de cerca de 35 músicos, disposta a poucos metros da própria família real numa das salas dos Palácios de Queluz ou da Ajuda. O ambiente festivo contava com a presença da restante corte e de ilustres convidados, em que as damas de companhia se sentavam no chão e os demais presentes se espalhavam mais ou menos informalmente pela restante sala. Não sendo realizado num dos teatros de corte, não havia cenários nem figurinos no espetáculo, mas tratando-se de uma peça teatral com várias cenas e acção concreta implícitas, é fácil imaginar que os cantores actuavam e interagiam de facto. A própria música está escrita de forma a dar tempo às movimentações dos personagens e faz prever distribuições distintas pelo espaço entre os cantores, criando um objecto sonoro rico, expressivo e eficaz a nível dramatúrgico.

Sobre o compositor

João de Sousa Carvalho nasceu em Estremoz em 1745 e veio a morrer em Lisboa em 1798. Foi em Vila Viçosa que iniciou os seus estudos musicais a 23 de Outubro de 1753, prosseguindo-os depois no Real Seminário de Música da Patriarcal, em Lisboa. Logo aos 15 anos, a 15 de Janeiro de 1761, ingressa no conservatório de Santo Onofre de Capuana em Nápoles na qualidade de bolseiro do Rei D. José I e na companhia dos irmãos Jerónimo Francisco e Brás Francisco de Lima e de outros músicos oriundos de Portugal.

Em 1766, a sua ópera sobre um texto de Metastasio, La Nitetti foi apresentada em Roma e é no ano seguinte que regressa a Portugal, altura que ingressou na Irmandade de Sta. Cecília. Torna-se então professor de contraponto do seminário da Patriarcal, onde foram seus alunos António Leal Moreira e Marcos Portugal. Em 1778 sucede a David Perez na qualidade de Compositor da Real Câmara e professor de música da família real. É a partir daqui que escreve regularmente serenatas para celebrar aniversários e outros eventos festivos da corte.

É considerado por vários musicólogos (Sampayo Ribeiro 1938, Santos Luís 1999, Stevenson/Brito 2012) como o compositor português mais importante da sua geração. Das 10 óperas escritas por compositores portugueses no seu tempo são-lhe atribuídas 4 e das 36 serenatas realizadas no reinado de D. Maria I 10 são de sua autoria.

Na sua correspondência com o embaixador em itália, cujas funções incluíam recrutamento artístico, o responsável português pelas actividades dos teatros de corte, Pinto da Silva, escreve em 1783 que apesar das crescentes dificuldades em encontrar em Itália cantores com nível para agradar os ouvidos da família real, “actualmente não existe compositor como o nosso João de Sousa Carvalho”, e que tanto ele como o seu discípulo António Leal Moreira recentemente compuseram excelentes serenatas.

Pedro Castro

Sinopse

1a parte

A acção começa com a Angelica a chegar à entrada da gruta onde Medoro se esconde e a convidá-lo a sair ([4]). Ele surge e ela verifica que os ferimentos que ainda precisam de tratamento são os do coração e não da carne ([5]). Para o assegurar do seu amor canta a ária “Mentre rendo a te la vita” ([6]) antes de partir para colher mais ervas medicinais ([7]). Ao ficar só, Medoro volta aos seus tormentos de ciúme por estar longe do seu amor na ária “Terrore m’inspira” ([8]). Noutra cena, surge Licori em busca do seu amado Tirsi ([9]) e pede às plantas e sombras da fl oresta que lhe digam onde pode encontrar o seu amado (ária “Ombre amene”, [10]). Ele aparece e assegura o seu amor à pastora ([11]). São interrompidos pela chegada intempestiva de Orlando que surge em perseguição de Mandricardo. Nenhum dos pastores viu passar tal guerreiro e Licori acaba oferecendo a sua humilde casa para o repouso do herói. Medoro lamenta-se do desespero de passar a vida a esperar pela sua amada, quando esta se volta a reunir com ele para seu grande alívio ([12]). Ao longe surge um guerreiro que Angelica percebe ser Orlando. Ela urge Medoro a esconder-se, explicando que com os seus olhares e palavras ternas vai despistar o perigoso guerreiro. Orlando chega com Licori e Angelica fazlhe várias promessas de amor, despedindo-se no final dizendo que se vai banhar ao rio e que mais tarde o volta a encontrar ([13]). Orlando fica a fantasiar com tal imagem na ária “Vanne, vanne felice rio” e parte. ([14]) Angelica regressa e encontra Medoro muito ofendido e desconfiado por ter achado tão convincentes e verosímeis as promessas de amor que acabou de assistir. A briga conjugal continua e acaba resolvida no dueto “Ah, non dirmi” ([15]).

2a parte

Licori entra no esquema de Angelica para a ajudar a escapar de Orlando e concorda em também o tentar seduzir para o distrair ainda mais ([1]). Quando surge o guerreiro ela põe em acção os seus dotes femininos, mas quando ele parte vem Tirsi que, sem Licori se ter apercebido, escutou toda a cena e está muito ofendido. Desta vez o casal não se reconcilia e o pastor acaba cantando “Il tuo pianto” ([2]) antes de partir. Angelica vem despedir-se da sua amiga e confidente pastora ([3]). Aconselha-a a não dar muita importância ao recente desgosto de amor, oferecendo-lhe uma pulseira de ouro antes de partir. Licori refl ecte na ária “Non curo del Fato” ([4][5]) que prefere a paz de alma, a beleza do prado e das simples fl ores ao resplendor do ouro que lhe foi oferecido. ([6]) Tirsi revela a Orlando o amor de Angelica e Medoro e prova-o através das inscrições que se podem encontrar pelo bosque. Licori faz mais uma tentativa desesperada de reconciliação que se revela infrutífera. Angelica urge o seu amante a fugir da fúria e desdém do perigoso guerreiro. Ao ver que a lua resplandece e lhes vai iluminar o caminho da fuga Medoro dedica-lhe a ária “Bella Diva all’ombre amica” ([7]). Angelica despede-se da gruta ([8]) que foi seu ninho de amor na ária “Io dico all’antro addio” ([9][10]). Orlando entra no esconderijo dos amantes e tem um acesso de ciúmes que se transforma em loucura ([11]), acabando a reclamar com os deuses e astros na ária “Da me che volete” ([12]). De repente ele vê um astro “benigno” ([13]) que lhe revela as qualidades da princesa aniversariante e o leva a dedicar-lhe uma série de louvores que culminam com o coro final ([14]).

Pedro Castro


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