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9.70177 - LOPES-GRAÇA, F.: Violin and Piano Works / Solo Violin Works (Complete) (B. Monteiro, J.P. Santos)
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Fernando Lopes-Graça (1906–1994)
Integral da obra para Violino e Piano e Violino Solo

 

Fernando Lopes-Graça constitui-se como caso único no panorama musical Português, de contestação política, intelectual e estética ao Estado Novo. Natural de Tomar, aí inicia os estudos musicais, prosseguindo-os com Adriano Merêa, Tomás Borba, Luís de Freitas Branco e Vianna da Motta no Conservatório Nacional de Lisboa. Concluído o Curso Superior de Composição, concorre nesta instituição às vagas de Piano e Solfejo. À obtenção do primeiro lugar segue-se a sua detenção. A este juntar-se-ão outros atos repressivos do regime, como a impossibilidade de uso da bolsa de Estudos de Musicologia no estrangeiro, ganha em 1934 e nova detenção em 1936. Leciona então na Academia de Música de Coimbra e colabora com as revistas Seara Nova, Presença e Manifesto. Partindo para Paris em 1937, estuda Musicologia na Sorbonne e trabalha composição e orquestração com Charles Koechlin. Os dois anos seguintes serão fulcrais na formação da sua perspetiva e tratamento da música tradicional portuguesa, divergentes do folclorismo politicamente propagandeado. Regressado a Portugal, inicia em 1940 a docência na Academia de Amadores de Música, que interromperá por proibição ministerial em 1954. Esta proibição ministerial deve-se ao facto de o compositor ser veementemente contra o Regime ditatorial de Salazar e por ser militante ativo do PCP (Partido Comunista Português). No regime em que viveu grande parte da sua vida, todos aqueles que não fossem a favor do mesmo, eram vítimas de perseguição pessoal, profissional e social. Desenvolve durante este período, a par da composição, intensa produção enquanto crítico, ensaísta e tradutor. À saída da Presença segue-se, em 1950, a cofundação da Gazeta Musical.

Recebe prémios de composição do Círculo de Cultura Musical em 1940, 1942, 1944 e 1952. À exceção 1º Concerto para Piano e Orquestra, nenhuma das obras galardoadas é no entanto interpretada. O desejo de divulgação de música contemporânea concretiza-se na fundação da Sonata, sociedade de concertos onde são ouvidas em estreia nacional obras de Bartók, Schönberg ou Webern. Da longa colaboração com Michel Giacometti, após 1959, nasce A Canção Popular Portuguesa. A vigilância da PIDE (Polícia de Investigação e Defesa do Estado) não impede nos anos 60 as homenagens, a apresentação pública de algumas obras ou o prémio Príncipe Renier do Mónaco (1965). A consagração dar-se-á após o 25 de Abril, aberta a possibilidade de interpretação e gravação de obras até então restritas e as viagens ao estrangeiro. Multiplicam-se os tributos e condecorações, bem como os convites de âmbito musical e político, nomeadamente para a Comissão de Reforma do Ensino Musical e para deputado pelo PCP.

Sonatinas para Violino e Piano Op 10 (LG 96) e Op 11 (LG 97)

As Sonatinas são obras de juventude, compostas em 1931. Ambas denunciam a estética neoclássica que marca a sensibilidade europeia entre guerras, num apelo à objetividade e concisão que se traduz numa simplificação da escrita e tendência para redução de meios. A Sonatina nº 1, dedicada a Augusto da Mota Lima, estreia em Paris em 1947, sofrendo nova redação em 1951. A Sonatinaº 2, para Mário Simões Dias será igualmente revista, em 1971.

Sonatina n.1 para Violino e Piano Op 10 (LG 96)
Moderato, Lento non troppo, Scherzando, Allegro non troppo

Polarizada na tonalidade de ré menor, esta sonatina deixa transparecer a primazia da forma—como testemunha o claro ABA nos três andamentos finais—o uso da imitação e o contraponto livre. O Moderato abre com dois motivos contrastantes, apresentados respetivamente pelo violino e pelo piano. Este lança o cantabile do violino, acompanhando-o com uma série de arpejos, até à reapresentação do motivo inicial. O Lento non troppo é marcado pelo carácter imitativo, entre solistas e também tratado pelo próprio piano, aspeto sobretudo evidente no segundo dos temas introduzidos. A airosidade do Scherzo trazida pelo violino contagia, na secção B, o piano, enquanto o primeiro a sobrepõe com um motivo lírico no registo agudo. O andamento termina com o clássico retorno ao A inicial. O motivo lírico trazido pelo violino logo se agita no Allegro non troppo final, num andamento em que se destaca o carácter de diálogo, em forma de intervenção alternada entre ambos os solistas.

Sonatina n.2 para Violino e Piano Op 11 (LG 97)
Moderato, senza rigore, Grave, Presto

Com uma formação de base pianística, Lopes-Graça oferece em toda esta sonatina, a hipótese de exploração de todas as possibilidades técnicas e expressivas do violino. O primeiro andamentodá o solo a este instrumento. Aqui são apresentados, simetricamente, dois temas, cada um por duas vezes: o primeiro é entrecortado por pizzicati, o segundo pontuado com expressivos glissandi. No Grave, a melodia, de âmbito inicial restrito, vai-se abrindo, em intervalos progressivamente mais largos. Retornará, uma oitava acima, após cadência, dissolvendo-se para o agudo. O andamento final é a oportunidade virtuosismo e técnica dada ao violinista; a entrada é de esfuziante entusiamo, dando depois lugar a um cantabile, que é repetido pelo piano, num momento intermédio de maior lirismo, que dará no entanto lugar, após provocação do violino sob forma de glissando, a novo momento de velocidade e brilhantismo.

Prelúdio, Capricho e Galope para Violino e Piano Op 33 (LG 98)

Composta em 1941, esta obra foi estreada no ano seguinte pelo violinista António Joaquim Silva Pereira, a quem é dedicada, com Helena Sá e Costa ao piano. Seria revista por Lopes-Graça em 1964. As raízes populares e o carácter e dançante são aspetos bastante evidentes e transversais a esta obra. No Prelúdio, os dois temas aparecem a modo de canção lenta no violino, que o piano ajuda a ecoar nas terceiras maiores, repetidas no final de cada motivo. No Capricho, sobre o inconfundível ritmo da habanera, trazido pelo piano, o violino apresenta o motivo principal, de distinto caráter popular e de dança, que se torna contagiante. É este mesmo motivo que será retomado no último andamento, agora em modo maior, num frenesi rítmico do qual o piano participa e que permite a ambos os solistas, nestes dois andamentos, a exploração virtuosística a par da vivacidade exigida pela linha melódica.

Trois Pièces para Violino e Piano Op 118 (LG 100)
Allegro molto, Berceuse, Danse

O ano de composição desta obra, 1959, é particularmente fecundo no âmbito da música vocal, sobretudo na produção para canto e piano sobre textos dos mais diversos poetas portugueses, de Camões a Eugénio de Andrade. As Trois piéces, única obra estritamente instrumental escrita neste ano, consistem, na realidade, em transcrições de obras prévias: o primeiro dos 24 prelúdios; o “Acalanto” do Álbum do Jovem Pianista e a primeira das Danças Breves. O carácter lírico é bem patente nos dois primeiros andamentos, a que o terceiro vem trazer um claro contraste. No Allegro molto, como sucede no equivalente pianístico, a exploração expressiva da linha melódica é a componente privilegiada. A escolha de “Acalanto”—literalmente afago, aconchego—como base para a Berceuse, na qual a ideia de cantiga é bem patente, torna-se plena de sentido. Na Danse é claramente notória a ideia, muito característica em Lopes-Graça, de uma perspetiva da música popular como referência idealizada, num constante equilíbrio entre a inspiração da tradição e, em simultâneo, a criação erudita contemporânea.

Pequeno Tríptico para Violino e Piano Op 124 (LG 101)
Elegia, Scherzo, Ditirambo

O tríptico dedicado ao violinista Blaise Calame é uma obra de 1960, tendo a primeira audição em 1961, com Lopes-Graça ao piano e Rafael Couto no violino. A Elegia, cantilena apresentada sobre o persistente motivo do piano, vai sendo lentamente exposta, com pequenas variações, até um “passionato”, que dá lugar à reapresentação do motivo inicial, mas agora à oitava superior. O contraste é trazido pelo Scherzo, vivo, dançante, com um breve motivo que se repete e vai subindo sempre, até ao registo sobreagudo, numa demonstração de velocidade e leveza exigida a ambos os instrumentos participantes. A obra encerra com o Ditirambo, melodia de sabor popular. A apresentação inicial do tema, alternada e em imitação entre os solistas, é feita pelo piano. O violino traz o segundo motivo, que repete e leva a um sobreagudo, descendo logo de seguida e dando lugar à reapresentação do motivo inaugural, novamente pelo piano.

Prelúdio e Fuga para Violino Solo Op 137 (LG 137)

Esta obra, dedicada a Rafael Couto, data do Natal de 1960 e teve estreia com o Canto de Amor e de Morte, considerado como absolutamente emblemático e como um ponto de viragem na produção de Lopes-Graça. O neoclassicismo encontra-se de forma bem patente nesta obra, desde logo pela escolha do género abordado como ainda pela apresentação e construção temáticas, tanto no Prelúdio como na Fuga. O primeiro é marcado por uma liberdade de organização rítmica muito característica do compositor, bem como pela exploração de diversas combinações intervalares, ainda que desligadas de qualquer pretensão de serialismo, estética, aliás, sempre recusada pelo próprio. O retorno a ré traz inclusivamente uma hierarquia não prevista pela escola shoenbergiana. A Fuga é construída seguindo as regras de exposição do material temático tal como são previstas pelas normas clássicas do contraponto, quer a nível intervalar quer mesmo de relação tonal, numa escrita que permite ao violinista simultaneamente a exibição virtuosística e expressiva do violino.

Quatro Miniaturas para Violino e Piano Op 218 (LG 103)
Prelúdio, Melodia, Mandolinata, Exercício

Obra de 1980, estreada seis anos após a sua composição, na Academia dos Amadores de Música, com Joaquim Pimenta de Magalhães no violino e Madalena Sá Pessoa ao piano.
Cada uma das quatro miniaturas se apresenta com um carácter individual muito próprio. No Prelúdio, os diversos arpejos do violino vêm num balancear muito elástico, acabando por se deter num motivo descendente, que culmina num lá agudo, para dar lugar a um final curto e staccato. Segue-se o lírico segundo andamento, uma Melodia que, em valores muito regulares, vai brincando com as segundas maiores e menores. O contraste absoluto é trazido pela Mandolinata que, quer pelos spiccatti de que vive, quer pelo acompanhamento do piano, testemunha de forma clara a rica variedade tímbrica e de carácter explorada nestas Miniaturas. No andamento final o destaque é dado, como nos anteriores, ao violino. Trata-se, como o título indica, de um Exercício, onde são didaticamente exploradas algumas das potencialidades técnicas e expressivas do violino, nomeadamente de velocidade, leveza ou tessitura.

Esponsais para Violino Solo Op 230 (LG 116)

Obra de 1984, com uma dedicatória bastante pessoal: “para o Miguel, no seu casamento”. A primeira audição pública dar-se-á três anos mais tarde, na Sociedade Portuguesa de Autores, interpretada nesta estreia por José Machado. A obra principia com uma lenta melodia em quintas de tom militar a que se seguem temas festivos e virtuosos intercalados com secções de maior intimismo. O uso de ritmos complexos, pizzicati de mão esquerda, acordes de duas e três notas e golpes de arco que produzem efeitos sonoros rebuscados manifestam-se durante toda a obra. Os ambientes produzidos pelo violino, através de diferentes dinâmicas produzem igualmente múltiplas cores, quer sejam elas sofisticadas, quer de uma quase rudez primitiva. Uma secção lenta no final, quase sem vibrato e em piano evidencia o carácter meditativo e etéreo do estado de alma do compositor, a que se sucede um final novamente com os motivos iniciais e que termina abruptamente com dois acordes secos como que de uma interrogação se tratasse.

Adágio doloroso e Fantasia para Violino e Piano Op 242 (LG 105)

Obra de 1988, é dedicada a Tibor Varga. Neste ano Lopes-Graça dedica-se essencialmente, na continuação do anterior, à produção para canto e piano, de forma particular sobre obras de Fernando Pessoa, no centenário do seu nascimento. O Adágio é uma profunda e comovente melodia em que o violino parece alternar entre estados de tristeza profunda e lamentação. O piano, por sua vez, acompanha igualmente de forma sentida e comovente o violino, intervindo muitas vezes no discurso como elemento principal. O ambiente sombrio e de pesar é concluído com harmónicos celestiais no violino, onde o piano, através de repetidas semicolcheias, mantem por seu lado uma pulsação estável e sóbria.

A Fantasia, também ela repleta de diversas secções contrastantes, oscila entre a rudez sofisticada e o lado sonhador de Lopes-Graça. A uma longa cadência para o violino em cordas duplas, seguida de um Largo comovente entre os dois intervenientes, o andamento desenrolasse com ritmos complexos, fortes contrastes dinâmicos e conclui com uma longa coda onde a batalha emocional entre os dois instrumentos se intensifica compasso a compasso, terminando em um acorde dissonante, que nada tem a ver com a tonalidade original.


Ana Carvalho


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