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9.70199 - MIGUÉZ, L.: Piano Music - Morceaux lyriques / Souvenirs / Scènes intimes / Noturno / Faceira / Allegro appassionato (Velloso)
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Leopoldo Miguéz (1850–1902)
Obras para piano

 

Leopoldo Américo Miguéz nasceu em Niterói (Rio de Janeiro), filho de mãe brasileira e pai espanhol. Tinha dois anos de idade quando a família transferiu-se para a Europa, residindo temporariamente na Espanha, onde o músico permaneceu até completar sete anos. Daí partiu para Portugal, estabelecendo-se no Porto. Nesta cidade, a formação musical de Miguéz, dedicada ao violino, ficou a cargo do professor Nicolau Medina Ribas. O aluno demonstrou rápido progresso, com várias apresentações em Portugal, e dedicou uma fantasia sobre temas de La Traviata ao seu mestre. Por imposição paterna dedicou-se ao comércio e aos 17 anos de idade, começou a trabalhar nesse ramo de atividade. De volta ao Brasil, com 21 anos, permaneceu no comércio até 1882, quando abandonou a profissão para se dedicar somente à música.

Em nova estada na Europa, durante dois anos, especializou-se no Conservatório de Paris, sob a direção de Émile Durand, e visitou a Bélgica. Ao retornar ao Rio de Janeiro (1884), foi diretor de ópera promovida pela Sociedade organizada por Claudio Rossi e fundou o Centro Artístico. Instituído o regime republicano no Brasil (1889), Miguéz participou de concurso para composição do Hino à Proclamação da República, quando conquistou o primeiro lugar. Ocupou o cargo de diretor do Instituto Nacional de Música, onde regeu a cadeira de composição e manteve um curso de violino.

Com a finalidade de aperfeiçoamento na área administrativa, retornou à Europa. A viagem permitiu-lhe introduzir melhorias no ensino, por meio de contratação de professores qualificados e medidas relativas à administração do Instituto, estabelecendo novos horários para as aulas, além da aquisição de partituras, documentos manuscritos, instrumentos e um órgão de Wilhelm Sauer. Em 1895,uma nova viagem à França, Bélgica, Alemanha e Itália proporcionou- lhe ideias e projetos de melhoria para a instituição.

Além de música para piano, Miguéz compôs a ópera Saldunes, muito aplaudida na estreia; os poemas sinfônicos Parisina e Ave Libertas; uma sonata para violino e piano, entre outras produções. Leopoldo Miguéz faleceu no Rio de Janeiro em 1902.

O estilo musical de Leopoldo Miguéz reflete duas caracteristicas. Em primeiro lugar, a educação musical recebida em Portugal. Posto só ter voltado ao Brasil com 21 anos, todo aprendizado obedeceu às condições que vigoravam na Europa. Com isso, Miguéz permaneceu alheio às influências do folclore e das canções brasileiras. Em segundo lugar, quando regressou, encontrou um ambiente musical na Corte no qual predominava um elitismo em que se buscava uma equiparação com a Europa. Naquele tempo e no início da República, a introdução de elementos musicais oriundos de danças ou canções populares significava mistura de classes sociais, indesejada pela elite. Dessa maneira, a produção musical de Miguéz ficou afastada de qualquer tentativa de estabelecer um nacionalismo para a música brasileira.

Durante a viagem à Europa em 1882, entrou em contato com a obra de Wagner, que lhe causou profunda impressão. Passou, então, a incorporar processos criativos do mestre alemão. Assim, embora suas obras orquestrais contenham traços wagnerianos, na realidade, a influência das obras sinfônicas de Liszt nelas foi mais marcante, sobretudo na maneira de tratar os temas.

A obra de Leopoldo Miguéz para piano mantém o estilo europeu adquirido durante sua formação. Nela encontramos influências de Liszt, Chopin e, em menor grau, de Schumann.

Traços lisztianos aparecem sobretudo no desenvolvimento dos temas, forma, harmonia e ritmo. As peças se caracterizam pela densidade da escrita, das harmonias inovadoras e atenção especial dada à forma. Os títulos das partituras se mantiveram em francês, pois se destinavam à elite, que só ela tinha acesso às aulas de música e aos concertos. Portanto, era conveniente que as músicas fossem designadas em francês, a língua culta dos salões e recitais.

Embora sua formação musical tenha sido através do violino, as composições para piano revelam grande domínio deste instrumento. A razão da preferência por obras não extensas se deve ao público a que se destinavam. Havia vantagens para o compositor assim como para os editores, pois no Brasil, no início da República, Miguéz simbolizava erudição, tanto por sua formação musical europeia, quanto como diretor do Instituto Nacional de Música. A maioria das músicas incluídas neste CD pertence ao período em que Miguéz era diretor do Instituto Nacional de Música.

Souvenirs op. 20
[1] Nocturne: dedicado a Alfredo Bevilacqua, professor do Instituto Nacional de Música. De caráter lírico, fiel ao estilo do Romantismo, apresenta o modelo estrutural A-B-A. Uma frase descendente, nostálgica, forma o tema da primeira parte da peça. Segue-se um episódio central mais movimentado, onde a melodia apresenta um modelo oscilante e persistente.
[2] Mazurka: de caráter chopiniano, evoca mais um tipo de dança comum nos salões do Segundo Império do que a forma polonesa do gênero.
[3] Scherzetto: composto originalmente para orquestra. Peça virtuosística, brilhante, de cunho burlesco. Não podemos afastar certa aproximação com a Dança dos Gnomos, de Liszt. A versão para piano aqui registrada é de autoria de João Nunes (1928).
[4] Lamento (Rêverie): dedicado em memória de Alexandre Levy, contrasta com a anterior pelo clima nostálgico.

Scènes intimes op. 24 (1894).
[5] Berceuse: dentre as obras registradas no CD, nela encontra-se a feitura mais simples, como é natural nas canções de ninar.
[6] Chanson d’une Jeune Fille: formada de tema e variações. Revela certa influência de Grieg, sobretudo pelo acentuado cromatismo na mão esquerda, que confere à música um cunho de lamento mantido em toda a composição. Miguéz utilizou uma textura cerrada, polifônica responsável pela densidade da peça.
[7] Conte Romanesque : dedicada ao célebre pianista e compositor português Arthur Napoleão, colega de Miguéz. Como o título sugere, a parte inicial apresenta uma melodia simples apoiada por arpejos na mão esquerda, seguida de um primeiro episódio central com acompanhamento em contratempos. Mais adiante surge um segundo episódio agitado e termina com o retorno ao tema inicial.
[8] Bavardage (tagarelice): dedicada a Frederico do Nascimento, professor do instituto Nacional de Música. O ritmo sincopado, em compasso ternário, lembrando certos acentos de Schumann. A coletânea op. 24 tem como subtítulo Quatre Morceaux Lyriques. Das peças Chanson dʼune Jeune Fille e Conte Romanesque existem versões para orquestra realizadas pelo compositor. A estreia dessa coletânea ocorreu no Instituto Nacional de Música, tendo Elvira Bello Lobo ao piano (1897).

[9] Faceira (Coquette) – Valse Impromptu op. 28
A primeira apresentação ocorreu no instituto Nacional de Música (1897). De acordo com título, a peça é leve, terminando em uma coda com melodia ondulante, primeiro em
oitavas ascendentes, depois, retornando ao grave.

Morceaux lyriques op. 34
[10] L’Improvisateur (Étude Poétique): Revela influência de Schumann.
[11] Saudade (Canção sem palavras): da qual existe uma versão para orquestra realizada pelo autor.
[12] Pologne (Mazurca): o ritmo bem marcado, com o emprego de notas pontuadas em ambas as mãos, difere em caráter da Mazurka op. 20 n. 2. Mais fiel ao estilo polonês,
nela não se pode descartar a influência de Chopin.
[13] La Mendiante (Romance sans Paroles): Em forma de Lied, a escolha da tonalidade de mi menor corresponde à condição simples e carente de uma desprovida de recursos. A parte central, em sol maior, adquire mais clareza.
[14] Plaisanterie (Humoresque): Bem movimentada (presto). Uma parte central (affetuoso) apresenta uma escrita nitidamente schumanniana, assemelhando-se à do final do
Arabesque op.18 do autor alemão.

[15] Nocturne op. 10
É a obra para piano mais executada de Miguéz. De textura mais complexa e variada que a do Noturno op. 20 n. 1, atria a preferência dos pianistas dentre toda a produção de Miguéz para o instrumento. Teve sua estreia em 1886, na interpretação do pianista e compositor português Arthur Napoleão.

[16] Allegro Appasionato op. 11
A data de composição (1883) relaciona-se com o retorno de Miguéz ao Brasil. Foi executado pela primeira vez dois anos depois, por Arthur Napoleão. É a peça mais tensa e agitada do CD, aproximando-se, quanto ao caráter, de alguns prelúdios ou scherzi de Chopin. Trata-se de uma partitura extensa, de notáveis exigências técnicas e interpretativas.


Sergio Bittencourt Sampaio


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