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9.70200 - OSWALD, H.: Piano Music - Feuilles d'Album / 6 Morceaux / 3 Romances / 6 Pezzi (Velloso)
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Henrique Oswald (1852–1931)
Obras para piano

 

Henrique Oswald nasceu no Rio de Janeiro, filho de pai suico e mae italiana. Quando contava apenas um ano de idade, a familia transferiu-se para Sao Paulo. Nessa cidade iniciou os estudos musicais, primeiramente com sua mae, e depois com o professor Giraudon, demonstrando especial talento. Com a intencao de aperfeicoar o aprendizado do jovem, a familia mudou-se para a Italia, onde Oswald matriculou-se no Instituto de Musica de Florenca.

Nesse estabelecimento, demonstrou tamanho progresso, que o diretor do Instituto indicou-o para professor substituto de piano, situacao inedita para um estrangeiro. Em tal posicao, executou obras de sua autoria quando D. Pedro II, Imperador do Brasil, esteve em Florenca. Diante do talento do brasileiro, o Imperador concedeu-lhe pensao durante mais de quinze anos para se aprimorar na Europa.

Oswald, entao, prosseguiu os estudos no Conservatorio de Veneza, aluno de Grazzini (composicao) e Giuseppe Buonamici (piano). Apos concluir o curso, percorreu o continente, e entrou em contato com compositores famosos como Saint-Saens, Debussy, Grieg, Liszt, Massenet, Brahms. Em 1889, foi designado pelo governo brasileiro vice-consul no Havre e em Genova, pois a republica tendo sido proclamada, ja nao dispunha das bolsas do Imperio.

Ao regressar ao Brasil, com 46 anos de idade, era membro honorario da Academia de Musica de Florenca. Deu seu primeiro concerto em Sao Paulo, com obras de sua autoria, em junho de 1899. Quatro anos depois, foi nomeado diretor do Instituto Nacional de Musica. Em 1931, foi-lhe concedida, pelo governo frances, a comenda da Legiao de Honra, porem faleceu no Rio de Janeiro pouco antes de recebe-la.

Henrique Oswald, tendo permanecido a maior parte de sua vida na Europa, assimilou as tendencias musicais existentes no Velho Continente. A influencia foi tao intensa, que, mesmo de volta ao Brasil, fez tentativas de incorporar os ritmos nacionais em algumas poucas partituras, mas nao conseguiu bom resultado. O uso da sincope, tao bem expressa nas composicoes de Ernesto Nazareth, parecia artificial no tratamento de Oswald, e a melodia mantinha aspecto italiano. Desse modo, Oswald ficou a parte do movimento nacionalista que se desenvolvia naquele tempo. Era o resultado nao so da longa permanencia na Europa e do contato com musicos estrangeiros, como tambem de um fator pessoal: a falta de adaptacao as novas tendencias alheias a sua forma de expressao.

Segundo o musicologo Luiz Heitor Correa de Azevedo, a obra de Oswald reune caracteristicas das escolas alema, francesa e italiana. Da primeira, certa profundidade de pensamento e de cuidado com a forma; da segunda, requinte, clareza e cuidadosa escolha das harmonias; da ultima, melodias encorpadas, plasticas, continuamente novas e graciosas. De tais caracteristicas, segundo o mesmo autor, resultou “um romantismo policiado, ʻparnasianoʼ, sem as efusoes delirantes do periodo aureo, sem o pessimismo sombrio, sem o tecido musical sobrecarregado dos mestres alemaes”. E de ressaltar que, embora, residindo grande parte da vida na Italia, o compositor nao tenha se dedicado especialmente a opera. Apesar disso, sua producao nesse setor incluiu tres operas: Il Neo, La Croce dʼOro e Le Fate. Tambem e autor de uma sinfonia, um concerto para violino e orquestra, uma suite, musica de camara e musica sacra, que e uma categoria na qual Oswald legou-nos verdadeiras obras primas, em funcao de sua grande religiosidade.

A maior parte das obras de Henrique Oswald para piano corresponde a pequenas pecas reunidas em coletaneas. Incluem formas musicais livres, correntes no Romantismo, incluindo berceuses, barcarolas, folhas de álbum, improvisos, romances, noturnos, valsas. Os titulos, com raras excecoes, sao em frances, o que traduzia certo grau de elitismo, posto que isso ocorria no Brasil com Leopoldo Miguez e outros compositores de sua epoca. Uma vez que as composicoes se destinavam a elite, esse fato favorecia sua divulgacao e aceitacao pelos editores. Algumas formas como barcarolas e berceuses parecem ter sido preferidas por Oswald.

Em quase toda a sua producao para piano, Oswald se manteve fiel ao estilo europeu, como resultado de tantos anos fora do Brasil. Na maioria das pecas predomina certa nostalgia, situando-se entre o Romantismo e o Impressionismo. O tratamento dos temas e refinado, ao gosto frances, com modulacoes suaves. Embora, na ocasiao, Debussy ja havia introduzido uma nova linguagem na musica francesa, Oswald ainda permanecia fiel ao estilo de mestres como Faure e Saint-Saens, o que nao lhe tira a originalidade, ao conceber uma forma de expressao delicada, propria, mais proxima de um devaneio, com linhas imprecisas, do que de uma elaboracao rigida e padronizada.

Six Morceaux op. 4 (circa 1887)

I. Valse. A valsa afasta-se do modelo vienense, aproximando-se da forma francesa, pela delicadeza e desenho melodico.

II. Rêverie. Em compasso ternario, com movimento ondulante de quialteras no acompanhamento. A melodia lenta, por vezes em pequenas oscilacoes cromaticas, transmite uma impressao de noturno.

III. Menuet. O compositor aqui se voltou para a antiga forma de danca.

IV. Berceuse. A parte inicial sugere o movimento de sinos, mais do que o movimento de um berco. Na parte central encontra-se uma melodia simples com ricas modulacoes.

V. Barcarolle. O movimento ondulante das gondolas venezianas e aqui expresso em uma melodia nostalgica, em tercas, na mao direita acompanhada por arpejos na esquerda. Um episodio central, em modo maior, desfaz a nostalgia inicial.

VI. Impromptu. Em compasso binario, com acentuacoes ritmicas proprias, evoca muito o universo schumaniano.

Trois Romances op. 7

I. n. 1 em Mi M. Logo a primeira vista encontramos um modelo que lembra Schumann.

II. n. 2 em Mi b M. A peca se aproxima de um noturno chopiniano.

III. n. 3 em Fa m. Na primeira parte, a melodia, simples, sem grandes pretensoes, e confiada a mao esquerda, sendo o acompanhamento em contratempo na mao direita. Uma secao central, em allegretto, sob a forma de danca, vem dispersar a melancolia inicial.

Il Neige

A peca mais conhecida de Henrique Oswald obteve o 1o lugar em concurso do jornal Le Figaro, em Paris (1902), com mais de seiscentos concorrentes de varios paises. O juri era composto de Saint-Saens (presidente), Gabriel Faure e do pianista Louis Diemer. O titulo primitivo seria “Il Pleut” (Chove), porem a esposa de Oswald sugeriu a mudanca para “Il Neige” (Neva), titulo definitivo.

Six Pièces op. 14

A coletanea traz dedicatoria ao professor Edoardo Gelli, amigo do compositor. Nela encontram-se as pecas mais divulgadas de Oswald.

I. Berceuse. Diferente da Berceuse op. 4 n. 4, esta peca possui ritmo mais uniforme, constante, o que lhe confere clima sereno.

II. Mazurka. Em se tratando de danca polonesa, Oswald aqui se aproximou do estilo de Chopin. Embora nos quatro primeiros compassos de a impressao de uma valsa.

III. Tarantelle. E a peca mais longa e brilhante da coletanea. Apesar de residir na Italia, a forma tarantela e o andamento presto sao excecoes na producao de Oswald para piano.

IV. Barcarolle. De feitura diferente da Barcarolle op. 4 n. 5, o movimento ondulante das aguas e mais bem percebido em ambas as maos. Na parte central a esquerda toma o motivo ondulante.

V. Nocturne. Faz-nos evocar Chopin.

VI. Scherzo. Novamente um presto, com ritmo bem marcado, lembra uma valsa acelerada. O ritmo formado por uma nota pontuada seguida de colcheias que continua por toda a peca.

Feuilles dʼAlbum op. 20

I. Inquiétude. As duas linhas melodicas expostas em ambas as maos, em andamento agitado, evocam o titulo da composicao. De cunho apaixonado, a melodia executa um ininterrupto movimento de vai e vem de curta extensao.

II. Chansonnette. De modo tranquilo, a melodia simples e clara, e exposta de forma singela.

III. Feux Follets. Oswald tentou representar uma imagem figurativa: o fogo fatuo. Grupos de duas notas separados por pausas breve dao a impressao do elemento oscilante e fluido dos fogos-fatuos. No seculo XIX, Liszt e outros compositores usaram o mesmo tema na musica.

IV. Désir Ardent. Agitada, em compasso binario, a peca se desenvolve sem interrupcao ou pausa, transmitindo a ideia de extrema inquietacao e paixao.


Sergio Bittencourt Sampaio


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