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GP725 - Piano Recital: Lourenço, Sofia - DADDI, J.G. / VIANNA DA MOTTA, J. (Portuguese Piano Music)
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O Virtuosismo Pianístico Oitocentista em Portugal

 

A vida musical urbana em Portugal foi em grande parte dominada pela ópera italiana—e em menor grau pela francesa—nos teatros de São Carlos e São João, em Lisboa e no Porto, respectivamente; pelo amplo desenvolvimento de vários géneros de teatro musical ligeiro, desde a opereta ao vaudeville e à revista; e por uma intensa prática doméstica de música de salão por parte das classes média e alta, que consistia sobretudo em canções sentimentais, arranjos instrumentais de trechos operáticos e uma grande variedade de danças cosmopolitas como a valsa ou a polca. A inexistência de orquestras permanentes, bem como de um circuito concertístico semelhante ao de muitos outros países da Europa Ocidental limitava severamente o desenvolvimento da música sinfónica e de câmara. Além disso, embora o projecto pedagógico original do Conservatório de Lisboa, fundado por João Domingos Bomtempo em 1835, seguisse de um modo geral o modelo do Conservatoire de Paris, a sua sistemática falta de uma dotação orçamental adequada impossibilitava-o de conceder aos seus alunos a formação avançada exigida pela pelo repertório instrumental virtuosístico.

Estas condições adversas não impediram, contudo, a emergência de alguns instrumentistas distintos que não só conseguiram adquirir um domínio técnico avançado nos seus instrumentos como foram, com frequência, pioneiros empenhados na promoção de oportunidades de apresentação em concerto, embora geralmente sem grande continuidade. Foi esse o caso, nomeadamente, de João Guilherme Daddi (1813–1887), nascido no Porto, que aos nove anos se apresentou como menino-prodígio e se afirmou depois gradualmente como um pianista, maestro e compositor respeitado, associado a vários teatros musicais de Lisboa e aproveitando todos as ocasiões possíveis para participar nos concertos de música sinfónica e de câmara que tinham por vezes lugar no Teatro de São Carlos. Em 1845, quando Ferenc Liszt realizou uma breve digressão triunfal em Portugal, o mestre húngaro travou conhecimento com Daddi e ficou tão impressionado com o seu nível artístico que convidou o pianista português a apresentar-se com ele em concerto no palco da Ópera de Lisboa, a 11 de Fevereiro, interpretando a Fantasia a dois pianos de Thalberg sobre a Norma de Bellini. Os ecos desse evento ainda ressoavam quatro anos mais tarde, quando o virtuose polaco Antoni Kątski, um célebre discípulo de Thalberg, veio a Lisboa e convidou Daddi a tocar com ele essa mesma peça.

Daddi tornar-se-ia um relevante promotor da vida concertística em Protugal, logo a partir de 1863, quando organizou no Teatro de D. Maria, em Lisboa, um recital de música de câmara com um programa de obras de Mozart, Haydn, Beethoven e Weber. Em 1874 estabeleceu, com um dos seus discípulos, Eduardo Wagner, uma Sociedade de Concertos Clássicos que lançaria uma série de concertos entre março e maio desse ano, e em 1875 foi um dos fundadores da Sociedade de Música de Câmara, também ela dedicada à apresentação do repertório camarístico de compositores internacionais como Mozart, Beethoven, Schubert, Schumann, Mendelssohn ou Chopin. Como compositor, a sua produção inclui sobretudo música sacra e teatral, mas também várias peças virtuosísticas para piano editadas pela casa Sassetti, na sua maioria fantasias sobre temas de óperas de Rossini, Donizetti e Verdi, ou valsas e outas danças estilizadas, todas elas um veículo evidente para a demonstração do seu domínio da técnica pianística.

Nascido numa das colónias portuguesas em África, a ilha de São Tomé, José Viana da Mota (1868–1948) começou igualmente como um menino-prodígio, aos seis anos, quando tocou na presença do Rei D. Fernando II, o príncipe de Saxe-Coburgo que enviuvara da Rainha D. Maria II e contraira entretanto um segundo casamento morganático com uma antiga cantora de Ópera, a Condessa de Edla. O Rei patrocinaria não só a sua formação inicial no Conservatório de Lisboa como os seus estudos avançados em Berlim, onde o jovem pianista português foi admitido na classe de piano de Xaver Scharwenka, no prestigiado Conservatório privado que este tinha fundado recentemente com seu irmão Philipp. Em 1884 Viana da Mota foi pela primeira vez a Bayreuth e imediatamente se converteu num wagneriano fervoroso, e no ano seguinte foi ouvido em Weimar pelo velho Liszt, que o admitiu simbolicamente no seu círculo com um magnânimo “Pode voltar”. Por fim, em 1887, foi aceite como aluno do mais famoso discípulo de Liszt, Hans von Bülow, reforçando assim ainda mais a sua adesão à corrente estética progressista da chamada “Música do Futuro” que tinha encontrado as suas figuras de proa em Wagner e Liszt.

Nos anos seguintes, Viana da Mota seria reconhecido como um dos expoentes mais marcantes da escola pianística de Liszt, quer enquanto solista, quer como intérprete de música de câmara ao lado de parceiros de renome como o pianista Ferruccio Busoni, o violinista Pable Sarasate ou o soprano Marcella Sembrich. Depois de uma carreira brilhante didática como professor nos Conservatórios de Berlim e Genève, em 1917 o governo português nomeou-o presidente de uma comissão encarregue da reforma pedagógica do Conservatório, de que dois anos mais tarde se tornaria director. Ao longo das três décadas seguintes seria responsável pela formação de vários dos mais aclamados pianistas portugueses de gerações sucessivas.

As obras para piano de Viana da Mota acompanham o seu processo de aprendizagem, desde uma fase infantil em que escreveu peças de salão curtas e ingénuas ao período dos seus estudos iniciais em Berlim, caracterizado pela assimilação dos padrões gerais da tradição clássico-romântica alemã. A sua principal preocupação neste período é claramente a da sua inserção numa linhagem cosmopolita de escrita para piano que partia de Beethoven e se prolongava com Chopin, Schumann, Brahms ou Liszt, baseada não só em obras solísticas ou de concerto mas também nos géneros de música de câmara com outros instrumentos ou com voz. Este é o período da composição de peças virtuosísticas como a Fantasiestück Op. 2 ou o Capriccio Op. 5, bem como do Concerto para piano ou a Fantasia dramática para piano e orquestra, todas elas datadas do final da década de 1880 e início da de 1890.

A partir de 1893, quando efectua a sua primeira digressão em Portugal desde a sua partida para a Alemanha, interessa-se, contudo, por combinar esse estilo internacional com uma inspiração nacionalista baseada nas canções de danças tradicionais do seu País. Durante a década seguinte várias das suas composições mais significativas reflectem esta nova tendência, desde as Cenas portuguesas, as Rapsódias portuguesas e a Balada para piano solo às Canções portuguesas para canto e piano ou à monumental Sinfonia à Pátria, de 1895, um marco do nacionalismo musical tardo-romântico em Portugal.

Daddi e Viana da Mota representam, pois, em meados e finais do século XIX, respectivamente, duas etapas consecutivas de um mesmo projecto de reinserção da música portuguesa num contextos estético pan-europeu, em particular pelo cultivo de géneros e formas musicais que não eram originalmente encorajados pelas elites portuguesas ou pelo mercado local, bem como pela tentativa de estabelecer no seu país as infraestruturas necessárias à implementação de uma vida concertística desenvolvida. Um projecto que em muitos aspectos é formatado, geração após geração, pela referência central da imponente figura patriarcal de Ferenc Liszt.

Rui Vieira Nery
Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos de Música e Dança


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