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Pedro Boléo
Classica, January 2015

Não é tarde para saudar a edição (no final de 2014) de um disco que reune duas obras muito importantes de António Pinho Vargas:]udas, oratória estreada em 2004, que parte de excertos dos quatro Evangelhos para rever a figura deste “traidor?” de Cristo; e o seu Requiem de 2012. Ambas as obras foram tocadas na Gulbenkian, dirigidas, respectivamente, por Fernando Eldoro e Joana Carneiro, em apresentações que ficarão na memória. Agora, com a ajuda deste disco que fixa esses dois acontecimentos a partir dos concertos ao vivo, a memória pode avivar-se e lembrar estes dois momentos marcantes da produção mais recente do compositor.

Judas Iscariotes pode ser lido nos Evangelhos como um traidor “necessário”, um traidor previsto e trágico, indispensável para dar sentido à vida de Cristo e ao seu exemplo de fidelidade, mas também à sua morte anunciada. A obra exigiu de Pinho Vargas não apenas um estudo aprofundado dos textos bíblicos, mas uma “tradução” (que é também uma traição, afinal) da figura de Judas para a sua linguagem musical, para a “sua” tragédia, obrigando-o a uma reflexão sobre a possibilidade de compor uma obra de fundo religioso, nova e absolutamente pessoal, mas profunda e conscientemente ligada à história da música anterior. A interpretação da Orquestra Gulbenkian é brilhante, desde o Diesfestus inicial, e o Coro Gulbenkian—aqui com destaque para as vozes femininas que têm um papel central- foi muitíssimo bem orientado por Fernando Eldoro para a construção desta oratória dramática. Nas seis partes da obra e no “comentário” final, ressalta o carácter reflexivo da composição de António Pinho Vargas, autor de uma “música que pensa” não apenas os temas que se propõe tratar, mas a própria obra e o processo da sua criação.

O Requiem é talvez ainda melhor exemplo disso mesmo, pois constitui-se como uma obra que enfrenta a morte tanto quanto o desafio de escrita de “mais um” Requiem. Resposta humana à ideia de perda e de ausência, com o seu lado frágil, ora enfrentando os medos, ora procurando refúgios melancólicos. Mas ambas as obras—e talvez ainda mais intensamente Judas—são marcadas ao mesmo tempo por uma busca de comunicação com os outros—incluindo os potenciais ouvintes-, sem para isso ter de “ceder” o que quer que seja da sua linguagem própria e do seu questionamento atento do mundo e da existência. Duas obras em que expressão e construção, intensidade e tempo, se equilibram e desequilibram a par e passo, sem se formatarem por um método único de composição ou por um “estilo” a priori.

O que fica é uma gravação éom muita qualidade de duas das mais ambiciosas e emocionantes peças do compositor, com as naturais limitações de um registo ao vivo, mas também com o que de bom isso tem, fixando momentos vivos e irrepetíveis de comunicação artística a partir de concertos excelentes. © 2016 Classica



Maria Augusta Gonçalves
Jornal de Letras, October 2014

Primeiro, em 2004, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, depois, no mesmo local, em 2012. Quem viveu um momento e o outro, sabe o que aconteceu: chegar ao fim desses dois concertos, com a certeza de ter ouvido duas obras maiores da contemporaneidade, dois momentos que marcam a vida, que detêm a sua essência e se impõem na memória; dois momentos que regressam uma e outra vez, com tudo o que de humano se hesita sequer em reconhecer. São essas obras, nesses dois instantes das temporadas de música da Gulbenkian, que agora se editam em disco: a oratória “Judas”, de 2002, e o “Requiem”, de 2012. Uma e a outra obra são de António Pinho Vargas.

Não há um único instante na produção do compositor que não exija pensamento, confronto, consciência do tempo e do espaço em que se vive, e da história que (n)os sustenta.

“Judas”, o apóstolo improvável no centro de uma oratória, uma personagem tão trágica como aquele que traiu. É essa traição, aliás—a traição de Judas, segundo Lucas, João, Mateus e Marcos, os quatro evangelistas –, que domina a obra e a faz terrena, consciente do que é comum aos mortais. Tudo é drama. A perturbação é constante, intensificada pelos instrumentos de percussão. Orquestra e vozes combinam-senum complexo jogo de texturas, materializando as perspetivas que se acumulam. No texto que acompanha o CD, Pinho Vargas recorda as limitações financeiras, que o impossibilitaram de usar solistas, obrigando-o a procurar diferentes soluções. Hoje, basta ouvir a secção em que Jesus garante que um dos apóstolos o entregará, para não se conseguir imaginá-la de outra maneira.

“Judas” estabelece necessariamente um elo com todas as grandes oratórias e paixões que a antecederam. No “Requiem”, essa ligação é mais evidente. O facto é destacado pelo compositor: “Escrever um ‘Requiem’ é, acima de tudo, ‘responder’ à história de numerosas obras do passado”. Mas é também, como sublinha, “lidar com um texto litúrgico” da tradição cristã ocidental, “cujo sentido mais profundo remonta ao momento em que o homem primitivo enterrou os primeiros mortos”, ou seja, ao momento inicial do longo percurso da humanidade, consciente de si mesma.

O “Requiem” de António Pinho Vargas é, como todos os Requiem, uma das mais íntimas possibilidades de ligação ao que de mais misterioso se impõe da existência, a morte. É a oração do fim de um tempo—mas é a deste tempo, com tudo o que de humano se teme. E conflui para esse acorde “imperfeito” final, em que se materializam todas as dúvidas, a grande incógnita. A obra coloca-se necessariamente na linha dos grandes Requiem da história da música. Mas esse instante tão perturbador pode encontrar paralelo também nesse fecho das “Memórias” de Rómulo de Carvalho (um outro Requiem): “De repente, tudo se desmoronou (…). E no alvoroço dos escombros, apareceram [os] olhos ardentes”, da companheira de décadas, que olhavam o poeta. “E é tudo. Adeus.”

No início do verão, a propósito da edição recente de dois outros discos do compositor—a ópera “Outro fim” e “Drumming”—, recordava-se aqui, no JL, que António Pinho Vargas se batera pela edição de todos os seus discos. A edição de “Judas” e do “Requiem” não fogem à regra. A dádiva é imensa. © 2014 jornaldeletras





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